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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O Grau 7 do R.E.A.A. – Preboste e Juiz

Irm. André Otávio Assis Muniz

I. Introdução Geral

Este Grau recebeu diversos nomes em diversos manuscritos diferentes. Ele é um dos mais antigos da Maçonaria Francesa e já era conhecido em Paris desde 1.745 sob o nome de Preboste e Juiz (Prévôt et Juge). Praticado em Metz em 1.761, a antiguidade deste grau é atestada por figurar no Antigo mestrado bordelaise em 1.750 e no Rito de Perfeição e no Grande Eleito de Londres. Se encontram 3 denominações para este grau:
- Perfeito Mestre Irlandês;
- Poderoso Irlandês;
- Preboste e Juiz.
Esta última denominação do grau, a de Preboste e Juiz, faz com que tenha uma denominação dupla, contrariamente aos outros Graus de Perfeição que têm nomes únicos.
Furetière, em seu “Dictionnaire Universel” define o Preboste como um juiz subalterno de cidades e vilas. Esta definição poderá fazer pensar que a dupla designação do grau é um pleonasmo. Na Idade Média, o Preboste tinha a função da administração dos bens e das receitas de um mestre, de um senhor leigo ou eclesiástico. O “Le Dictionnaire du Moyen Âge” considera que o Preboste, além de ter poder judicial, era o representante do rei em uma determinada fração de sua propriedade. No Grau de Preboste e Juiz, no entanto, as duas funções devem ser analisadas com maior cuidado pois aparecem como coisas separadas.
O Preboste detém a chave do cofre com os planos do Templo e a urna contendo o coração de Hiram, enquanto o juiz desempenha sua função utilizando a balança para fazer seus julgamentos.
O candidato a este grau é investido de uma dupla função: ele deve fazer a justiça e é o guardião dos planos destinados aos Mestres Maçons e do coração embalsamado de Hiram.
Este grau ensina que governar e ter responsabilidades de comando implica em conhecer e agir com justiça, equidade e imparcialidade.
O ritual evoca um tribunal que fornece ao Rei Salomão o meio de restaurar a ordem necessária permitindo aos obreiros continuar a construção do Templo interrompida pela desaparição do Mestre.
O bem agir caminha junto com a vontade de uma ação leal e sincera.

II. Tema do grau

É muito importante ter em vista que os graus maçônicos têm como base a fontes diversas e que, tal origem pode deixar bastante misturados os fatos apresentados nas lendas.
Neste grau, o presidente da Loja representa Tito que, ao contrário do que é dito no ritual brasileiro à página 48, de que seria um nome sem “qualquer significado conhecido” possivelmente deriva de um patronímico romano relacionado com o latim titulus, que significa “honrado, respeitável”, ou seja, um nome simbólico para o decano dos Mestres Irlandeses, príncipe dos Harodim, ou chefes e condutores dos trabalhos em número de 3.300, que Salomão estabeleceu sobre os obreiros do Templo, em acordo com o 1º Livro dos Reis, 5, 16 (Biblia Sacra Vulgata, Liber Malachim – III Rg 5,16):

“absque praepositis qui praeerant singulis operibus numero trium milium et trecentorum praecipientum populo et his qui faciebant opus (e também prepostos em número de três mil e trezentos que comandavam as pessoas e supervisionavam o trabalho”).

Já o nome “Zadoc”, é, na verdade, uma corruptela de Tzadek ou Tzadok, que significa em hebraico, “Justo”. Sendo assim, longe de não ter “qualquer significado conhecido”, Tito Zadoc significa Justo Honrado/ Respeitado.
O ritual em uso no Brasil comete mais alguns erros grosseiros em relação ao relato bíblico. Na edição de 2.014, p.47, “A lenda do Grau 7 Preboste e Juiz”, é dito que os operários eram cerca de 3.600 e que Salomão resolveu instituir um tribunal composto de sete Prebostes e Juízes. O relato bíblico diz, no entanto, que o número de supervisores era de 3.300 e que Salomão arregimentou 30.000 trabalhadores de todo o Israel. Além desses, Salomão dispunha de 70.000 carregadores e 80.000 cortadores de pedra nas colinas. Ou seja, 183.300 envolvidos que o ritual reduz a 3.600, cometendo um erro de “apenas” 179.700 trabalhadores no total e de 3.293 prebostes...Seria interessante que os responsáveis pela ritualística do R.E.A.A. tivessem o cuidado de ler as fontes dos relatos contidos nos rituais para que fosse esclarecido, no próprio ritual, que o número 7 é simbólico, e não o número fidedigno ao que se encontra no relato bíblico. Tais inexatidões, caindo nas mãos de conhecedores da Bíblia, passam a impressão de uma Maçonaria inculta e descuidada.
No decorrer da iniciação deste grau, o candidato executa 7 viagens, ou 4, de acordo com a variação dos rituais. No coração de cada uma dessas viagens, é exposto algum meio de bem exercer a justiça. Ele é interrogado sobre a maneira que a concebe, sobre os deveres que deve preencher e sobre suas aptidões para com essa função.
Este grau é, também uma cerimônia de homenagem funerária em memória do Mestre desaparecido. Isto não acontece no ritual atual em uso no Brasil.
O tema da lenda é centrado sobre a construção do Templo relatada no Livro dos Reis e em Crônicas.
Depois da morte de Hiram, Salomão nomeia sete Prebostes e Juízes. Os prebostes são encarregados de examinar os planos elaborados pelos Arquitetos, verificando sua conformidade com os projetos elaborados pelos Grandes Mestres. As reuniões se dão na câmara do meio do Templo. Os planos dos edifícios e as contas devem ser conservados em um cofre de Ébano, cuja chave é conservada pelos Prebostes e Juízes.

III. A moral do grau

O tema moral central do grau é a JUSTIÇA, na decisão e no julgamento.
Todo aquele que é investido com o poder de julgar deve ser imparcial, sem qualquer consideração pessoal à força dos poderosos, ao suborno dos ricos, ou às necessidades dos pobres.
Em nossa época, onde superabundam as informações sem comprovação, os boatos, as intrigas públicas através das redes sociais, o grau de Preboste e Juiz ensina que o maçom deve ouvir pacientemente e pesar cuidadosamente os fatos e argumentos oferecidos. Não deve concluir nada precipitadamente, nem formular opiniões e sentenças antes de ter ouvido a todas as partes envolvidas.
Albert Pike, em sua obra “Moral and Dogma of Ancient and Accepted Scotish Rite”, ensina que nas nossas relações com os outros há dois tipos de injustiça: a primeira é a daqueles que lesam os outros e a segunda é a daqueles que podem prevenir uma lesão nos outros, feita por terceiros, mas não fazem. Dessa maneira, a injustiça ativa pode ser feita de duas formas – pela força e pela fraude, ambas absolutamente repugnantes ao deve social, sendo a fraude a mais detestável.
Outro fato que devemos ter em mente é que a injustiça pode ser reparada, mas nunca desfeita. Podemos nos arrepender, pedir perdão a quem a sofreu, formular o firme propósito de não mais agir de forma injusta etc., mas não podemos desfazer aquilo que já foi feito e cujos efeitos já deixaram as marcas no corpo e/ou na alma.
A Maçonaria, através de seus ensinamentos, refreia as pessoas da comissão de injustiças. Para o verdadeiro maçom, trapacear, levar vantagem no comércio, no foro, na política etc., não é menos culpável do que roubar. Deliberar mentiras não é crime menor que o perjúrio, caluniar não é menor do que usurpar e seduzir para o mal não é menor que o homicídio.
Pensemos em quanta falta faz hoje, à Maçonaria e à sociedade de forma geral, a aprendizagem sincera das lições desse Grau. Quantos “Irmãos” carregados de graus e de títulos, cheios de poderes maçônicos e cargos, só se servem deles para a obtenção das mais profanas vantagens motivadas pelos mais baixos e condenáveis interesses?
Com quanta facilidade e com quanta irresponsabilidade são propagadas fofocas, inverdades, calúnias, injúrias e difamações de maçons para com outros maçons? O que dizer das manobras sujas, das campanhas difamatórias, das trocas de acusações etc., às quais assistimos em cada período eleitoral dentro da Ordem?

IV. O Simbolismo do Grau

IV.1. A balança

Na mitologia grega, Themis, Deusa da Justiça, tem por atributo a balança que permite julgar com equidade. Também Zeus pesa com uma balança o destino dos homens antes de lhes atribuir. No manuscrito da Franco-Maçonaria 76, na Biblioteca Nacional Francesa, a utilização da balança é definida da seguinte forma:

P. O que haveis encontrado na Loja?
R. Uma balança.
P. Que significa ela?
R. A exatidão com a qual devemos desempenhar nossas funções, e a justiça com a qual devemos decidir sobre as diferenças que surgirão entre os obreiros.

Significados complementares são dados por outros manuscritos, entre eles o de Lyon, 5.921-5:

P. Que significa a balança?
R. A exatidão e a equidade com a qual devemos desempenhar nossas funções, pois somos encarregados de finalizar amigavelmente todas as diferenças que surgirem entre os obreiros do Templo sobre os quais nós fazemos inspeção.

O manuscrito de Avignon, 30.083, dá como resposta:
R. Eu farei a mais exata justiça a todos os obreiros do Templo, em conformidade com a balança que me foi dada por emblema.

Um mestre deve se esforçar para fazer a justiça com toda a objetividade e equidade, buscando a verdade em todas as situações. A balança é um símbolo de equilíbrio e exatidão. Atributo do preboste e juiz, se encontra nela o símbolo do nível, que é o emblema do Segundo Vigilante na Loja Azul. A balança exprime a lei do equilíbrio universal de onde os fundamentos de sua estabilidade apresentam a imagem fixa dos dois pratos imobilizados no mesmo nível. Os dois pratos da balança trazem numerosas correspondências simbólicas: como força de polos opostos e complementares. O braço e o eixo da balança formam um “T”; este símbolo faz alusão à coluna do meio da árvore da Sefirotes. Os dois lados do braço representam o rigor ou a força e a misericórdia ou clemência. Este símbolo do “T” se reencontra no sinal do preboste e juiz.
A balança dada por Salomão ao intendente dos edifícios é símbolo de estabilidade, manifestada pela lei do equilíbrio posta em ato através de sua manifestação.

IV.2. A chave de ouro

A chave de ouro é apresenta da como tendo uma dupla função: de um lado, ela dá acesso à urna onde está o coração de Hiram (o plano ideal da perfeição); de outro, ela permite abrir o cofre que contém os planos do Templo, o plano da prática:

P. Que significa a chave?
R. Que somos nós que sabemos onde repousa o coração de nosso respeitável Mestre Hiram.

O simbolismo da chave está evidentemente relacionado com seu duplo papel de abertura e fechamento. É, ao mesmo tempo, um papel de iniciação e de discriminação. O poder das chaves é o que lhe faculta ligar ou desligar, abrir ou fechar. Na terminologia hermética, as chaves aparecem como emblemas da autoridade espiritual e da função régia, também dos grandes mistérios e dos pequenos mistérios. No Japão a chave é também símbolo de prosperidade, uma vez que abre o celeiro de arroz. Possuir a chave significa ter sido iniciado. Indica não só a entrada num lugar, cidade ou casa, mas acesso a um estado, morada espiritual, ou grau iniciático.
Nos contos, como nas lendas, muitas vezes se mencionam três chaves: elas introduzem sucessivamente em três recintos secretos, que são outras tantas antecâmaras do mistério. De prata, ouro ou diamante, elas marcam as etapas da purificação e da iniciação. A chave é, aqui, o símbolo do mistério a penetrar, do enigma a resolver, da ação dificultosa a empreender, em suma, das etapas que conduzem à iluminação e à descoberta.

IV.3. A arca de ébano
A arca é de madeira de ébano, matéria vegetal, caracterizada por sua dureza, sua densidade e sua cor negra. Esta arca contém o segredo da construção pelos planos que detém. Ela evoca a ideia de que o corpo físico do arquiteto está entregue à putrefação depois que a carne deixou os ossos, devido à sua cor negra.
A arca de ébano relembra a terra, destinada a preservar as coisas que merecem ser preservadas, como os tesouros. O simbolismo aqui tem por base dois elementos, o fato de nele se depositar um tesouro material ou espiritual, e o fato de que a abertura da arca seja o equivalente de uma revelação. Aquilo que se depõe na arca é o tesouro da Tradição, um instrumento da sua revelação e da sua comunicação com o céu, e é este o motivo pelo qual os imperadores da China selavam em arcas, no cume do monte Taishan, as súplicas endereçadas ao Soberano Celeste. A revelação divina não pode ser levianamente despida de seus véus. O cofre não pode ser aberto, senão na hora providencialmente estabelecida, e só pelo detentor legítimo da chave. A abertura ilegítima do cofre é cheia de perigos.

V. Conclusão
Há muito mais a se falar e estudar sobre este Grau. No entanto, o atual formato de nossa ritualística impede que haja um tempo maior para se estudar cada grau como deveríamos poder fazer.
Gostaríamos de falar sobre as modificações nos paramentos e outros muitos detalhes que, infelizmente o tempo não nos permite. Convidamos os Irmãos à pesquisa! 

domingo, 31 de julho de 2016

Uma visão panorâmica do Grau 33 do REAA

Por André Otávio Assis Muniz

I. Introdução

O Grau 33, último grau do Rito Escocês Antigo e Aceito e, no Brasil, também o último Grau de outros ritos influenciados pelo Sistema Escocês (Adonhiramita e Brasileiro), é cercado de uma aura de mistério e de hiper valorização.
É comum ouvir entre maçons e não maçons a referência admirada a alguém dizendo: “- Ele é Grau 33”...
Essa admiração, ainda que justificada pela longa caminhada iniciática de alguns Irmãos portadores desse último Grau, deve ser temperada de sobriedade e razão.
Vamos dar um rápido sobrevôo sobre o Grau e, assim, tentar desfazer alguns equívocos bastante comuns em relação a ele.

II. Origem

Os primeiros documentos que citam o Grau 33 no Sistema Escocês traz a data de 1786. No entanto, é sabido que essa data não corresponde à realidade.
Tanto os chamados “Novos Institutos Secretos e Fundamentais da muito Antiga e Venerável Sociedade dos Maçons Livres Associados, ou Ordem Real e Militar da Franco-Maçonaria” quanto as “Constituições Estatutos e Regulamentos” (esses últimos datados de 1786), que dizem ter sido redigidos por Frederico II, Rei da Prússia, são falsificações.
Apesar de serem falsificações, são os documentos mais antigos e fundamentais do Rito Escocês Antigo e Aceito. Frederico II não passou nem perto deles mas, apesar disso, permanece como figura central nas alegorias do Grau.
Frederico II figura como modelo de Imperador esclarecido e iluminista . O exercício do poder foi para ele um exercício de sabedoria e de trabalho em prol dos seus governados. Sendo assim, é um tipo de arquétipo a ser seguido pelos Grandes Inspetores Gerais no governo dos Altos Graus.
Provavelmente, o Grau 33 foi criado nos Estados Unidos da América no final do século XVIII, quase início do XIX.
Há três hipóteses mais fortes para a escolha desse número:
a) Uma referência à idade de Jesus Cristo, símbolo da “caminhada da perfeição”
b) A passagem do “paralelo 33” sobre Charleston nos EUA (não é exatamente 33 o paralelo, é o  32°47’N 79°56’ mas pode ter havido uma aproximação).
c) Uma referência aos 33 membros da Guarda Escocesa que faziam a guarda pessoal do Rei da França.

III. Desenvolvimento

Originalmente, o “Rito de Perfeição de Heredom”, que seria a base do REAA, era um rito de 25 Graus.  Ao contrário do que se pensa, a maioria desses graus não tinha rituais. Eram transmitidas as lendas, as palavras e só.
O Rito de Heredom, cujo sistema já estava estabelecido na década de 1750, tinha como Grau máximo, de número 25, o de “Sublime Príncipe do Real Segredo”, "Sublime Comendador do Real Segredo".
A importância que se dá hoje à ritualística, aos interstícios etc. dos chamados “Altos Graus”, era bem pouco conhecida nos séculos XVIII e XIX.
Alguns sistemas maçônicos compactaram as lendas em um único Grau para abreviar o tempo para que se passasse o conhecimento. No Regime Escocês Retificado, por exemplo, a essência dos Altos Graus era transmitida no Grau de Mestre Escocês de Santo André, que compreende a parte central dos ensinamentos do Grau 4 ao Grau 18.  Os Graus subseqüentes, ou seja, a dita “Ordem Interna”, que compreendia os Graus de Escudeiro Noviço e o de Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa (CBCS, dividido em Professo e Grande Professo), têm características cavalheirescas retiradas da Estrita Observância Templária e não propriamente maçônicas.
No Rito Moderno, são nada menos que 81 Graus compactados em 5 Ordens ditas “Sapienciais” ou “de Saberdoria” (Ordres de Sagesse). Neste Rito, originalmente, não havia Altos Graus tendo em vista que era a simples transposição dos costumes da Grande Loja de Londres (dos “Modernos”) para a França.  O sistema de Altos Graus foi elaborado com base em todos os Graus praticados na França oitocentista (81 ao todo).
A Maçonaria só passaria a praticar o 3º Grau em 1724.  As primeiras Lojas em território francês seriam implantadas um ano depois, ou seja, com o Grau de Mestre recém elaborado.
Mais de 60 anos depois, por conta da necessidade de se estabelecer ordem dentro das práticas de Altos Graus nas diversas Lojas Capitulares,  se estabeleceu na França o “Grande Capítulo Geral” que, através da pena de Alexandre Roëttiers de Montaleau, estabeleceria os rituais das 5 Ordens Sapienciais do Rito Moderno.
Até que Albert Pike revisasse os rituais, já quase no final do século XIX, os “Altos Graus” do REAA também não tinham forma ritualizada.
O próprio Albert Pike recebeu, em uma única ocasião, do Grau 4 ao Grau 32, de Albert G. Mackey.
Quando foi eleito para ser membro do Supremo Conselho do Grau 33, também o recebeu por comunicação, tendo em vista que seria ele o verdadeiro autor dos primeiros rituais, propriamente ditos, do REAA.
O ritual mais antigo que se conhece do Grau 33, descoberto pelo próprio Albert Pike, traz procedimentos bastante simples em relação ao que se pratica hoje.
O REAA na época de Albert Pike era um dos menores grupamentos maçônicos existentes no mundo. Era um rito minoritário.

IV. Temática

O Grau 33 gira em torno da temática dos chamados “Graus Cavalheirescos”.
Reunido em um templo armado de vermelho com ornamentos dourados, tendo esqueletos, tíbias e crânios como adornos, o Supremo Conselho recorda o massacre de Jacques Demolay e dos templários.
A “caveira vingadora”, um esqueleto presente no lado norte da sala, portando o estandarte do Supremo Conselho em sua mão esquerda e um punhal em sua mão direita faz, justamente, alusão ao desejo de justiça para aqueles que foram vítimas das intrigas, calúnias e injustiças. Tal caveira representa, obviamente, Jacques De Molay.
A coroa imperial de Frederico II e o seu cetro encontram-se sobre a mesa do Soberano Grande Comendador que, aliás, representa o próprio Frederico. Seu auxiliar ou vigilante, se senta no Ocidente e representa Louis de Bourbon, que teria, na lenda, auxiliado a Frederico II na reforma do Rito de Perfeição de Heredom.
Em outras palavras, a coroa e o cetro representam ao poder de Frederico II que teria se transmitido aos Soberanos Grandes Comendadores para que governassem o REAA.
Coroa e cetro são símbolos de poder, de mando e de governo. Fica óbvia aqui a pretensão de “governo” sobre toda a chamada “Maçonaria Escocesa”.
Onze luzes iluminam a sala, recordando a data maçônica da extinção da Ordem do Templo, ou seja 5312 (1312 + 4000).
As divisas “Ordo Ab Chao”(Do caos a ordem) e “Deus Meumque Jus” (Deus e o meu direito), colocadas na porta do Supremo Conselho relembram :
- A ordenação e o governo dos diversos graus (que sem um centro de comando estariam mergulhados no caos e desordem);
- A ordem social dada pela sabedoria e pela moral, sem os quais a sociedade mergulharia no caos;
- Os princípios de lei natural (jusnaturalismo), ou seja, aqueles dados por uma potência superior e transcendente da natureza, representada no Ocidente cristão pela figura de ‘Deus’;
- Os princípios da lei consuetudinária e das normas positivas reguladoras do Direito (juspositivismo) que regem as sociedades, representadas aqui pelo “meumque jus”.
Os rituais variam quanto à presença de um transparente com um triângulo tendo a letra hebraica “yod” ao centro ou com o numeral 33 em seu lugar.
Os membros do Supremo Conselho são descritos como “vestidos de negro” e “armados de espada” o que se explicaria pelo luto provocado pela morte dos templários, denominados de “nossos Irmãos” e a vingança contra a Intolerância, o Fanatismo e a Ignorância que os condenaram aos tormentos e à morte.
A temática da “Justiça e Equidade”, que é trabalhada mais extensamente no Grau 31, é retomada de maneira “un passant” no Grau 33. A presença divina no Supremo Conselho, representada pelo transparente, não é temida pois, simbolicamente, os Grandes Inspetores Gerais agem com retidão e justiça, dentro das leis humanas e divinas.
O símbolo mais universalmente conhecido do Grau 33 é a águia bicéfala, segurando uma espada entre as garras e tendo a coroa imperial entre as duas cabeças.
Esse símbolo é oriundo, no caso do REAA, de mais uma referência à Prússia. Trata-se da águia negra bicéfala da Prússia, com algumas modificações.
A águia prussiana tem nas garras um globo encimado por uma cruz e uma espada. A águia do Grau 33 agarra apenas uma espada com ambas as garras e, por vezes, nessa espada, há um filactério com o dístico “Deus Meumque Jus”.
Ao longo do tempo, com a imensa “criatividade” de alguns dirigentes do REAA, a águia foi se transformando e ganhando novas (e cada vez mais forçadas) características e interpretações.

V. Inovações (e deformações)

Se compararmos diversos rituais do Grau 33 veremos que, em pouco tempo, foram sendo introduzidas mudanças e “novidades” aqui e ali.
Uns falam em triângulo com o vértice para baixo, outros falam em vértice para cima. Uns dão importância a que haja uma estrela de nove pontas, constituída de 3 triângulos eqüiláteros, com cada uma das letras da palavra “Sapientia” nas mesmas. Outros nem citam essa estrela.
Uns rituais falam no transparente com o triângulo (com a ponta para baixo ou para cima) no meio de um resplendor com o “yod” , ao qual se dá um papel importante por ser o “nome de Deus”. Outros falam do numeral 33 e não citam o “nome de Deus”.
Nos EUA, a águia bicéfala negra prussiana virou uma águia americana de duas cabeças com a coroa imperial (?) por cima.
Além disso, há algum tempo, resolveram introduzir “ramos” nos bicos da águia, como se ela fosse um tipo de “pomba da paz”.
No Brasil, há alguns rituais que afirmam que as duas cabeças representam “Ordem e Progresso”...Ou seja, o ritual do Grau 33 toma contornos positivistas e Comte se torna um novo “ideólogo” para os Supremos Conselhos.
Outros rituais foram sendo modificados para se “ajustarem” aos hábitos de uma ou outra Obediência Maçônica. Um “figurão” qualquer inventava uma inovação e lá se iam a modificar todos os rituais.
Em fotos bem antigas, de meados do século XIX, oriundas do Supremo Conselho de Portugal, vemos os Grandes Inspetores Gerais vestindo o avental e o colar, ou a faixa e o avental. Em fotos do começo dos século XX ou do final do XIX, o avental some e dá lugar somente à faixa ou ao colar.
Os aventais se tornam peças de museu e a arrogância de dizer que “não é preciso mais avental porque o trabalho iniciático já está acabado” se torna uma justificativa comum.
Posteriormente inventaram o uso de uma “faixa abdominal”, um tipo de cinta com um lacinho ou uma fita de premiação com um rosetão com fitinhas dependuradas. Tal adorno DEVERIA ser usado somente se o Grande Inspetor Geral estivesse revestido de túnica vermelha, coroa e capa. Nunca sobre o paletó...  
Originalmente, o Soberano Grande Comendador se revestia de uma túnica de cetim carmesim, bordada e debruada de branco e a coroa Imperial era vestida por ele. Hoje, a coroa fica sobre a mesa, assim como a espada que ele deveria portar.
O barrete com a “Cruz de Lorena” é mais um acréscimo. Ele já teve a águia bicéfala em vez da referida cruz e ganha cores diferentes em acordo com a “criatividade” dos chefes dos Supremos Conselhos. Outras cruzes, cada vez mais complexas e cheias de traves, vão modificando os paramentos que, aos poucos, parecem uniformes de bandas marciais ou uniformes dos stewards de hotel...
Um capítulo à parte são as patentes do Grau.
De documentos bastante sóbrios que continham apenas os elementos essenciais indicados nas leis do REAA, as patentes ou diplomas do Grau 33 foram se tornando verdadeiras “overdoses visuais”, com desenhos ornamentais de cores fortes, faixas impressas, águias carnavalescas e um mau gosto à toda prova.
Se chegar ao Grau 33 deveria ser uma forma de obter uma visão completa do sistema ritualístico do REAA, passou a ser um tipo de “formatura” às avessas, onde os “professores” que lá estão sem saber grande coisa, vão modificando as características do sistema até que ninguém entenda mais porque os elementos simbólicos e alegóricos devem estar nos graus.
Como se não bastasse tudo isso, ainda há a mania de secretismo em torno do Grau. Em vez de se dar a oportunidade para que pessoas sérias, capacitadas e interessadas pesquisem sobre o Grau  em suas diversas versões, publiquem suas pesquisas e , dessa forma, sejam incrementadas as informações históricas e simbólicas que há sobre ele possibilitando uma maior preservação dos seus elementos essenciais, há dirigentes que ainda não se deram conta que desestimular a pesquisa, no século da Informação, da internet, da conectividade móvel e imediata, não vai “preservar” qualquer “segredos”, que, aliás, já são de domínio público há muito tempo, mas apenas fomentar a desinformação e a invencionice.
Graças a essa mentalidade, que privilegia a manutenção de um “fechamento” epistemológico, as informações acabam viciadas em um mesmo meio, com os membros de um ou outro Supremo Conselho acreditando que só existe uma versão do Grau, a sua própria...E pior, acreditando que, assim, estão “preservando” alguma coisa.
A cada mudança e a cada invenção introduzida nos rituais por indivíduos ineptos que só tem poder burocrático mas nenhum conhecimento efetivo, um pedaço dos rituais vão se perdendo. Dessa maneira, cada geração de novos Grandes Inspetores Gerais vai recebendo uma visão mais mutilada do Grau 33. Sem que hajam estudos sérios, análises comparativas etc., não há possibilidade de preservação coletiva dos elementos mais autênticos do Grau.
Tal situação tende a ser enormemente agravada quando os portadores do Grau se sentem tão “elevados” que não precisam mais estudar...Infelizmente essa é uma situação bem recorrente.

VI. Grau Administrativo?

Há um consenso quase geral de que o Grau 33 seria um grau puramente administrativo.
Apesar de haver elementos claramente voltados ao “governo” da chamada “Alta Maçonaria Escocesa”, ou seja, elementos administrativos,  o grau traz também elementos morais e simbólicos evidentes.
O binômio “Direito Natural” ou “divino” e “Direito Positivo” ou “social” é tratado de maneira bastante equilibrada através da correta compreensão dos dísticos.
A busca constante pela justiça e o combate à Ignorância, ao Fanatismo e à Intolerância dão o tom da “vingança”. Em outras palavras, não se trata de uma “vingança cega”, mas sim de uma vingança temperada pela razão, pelo pensamento e pelos valores morais defendidos pela Maçonaria.
A cor vermelha, cor do REAA, que faz referência ao sangue derramado em prol da verdade, cor da cruz pátea dos templários, à completude da Grande Obra Alquímica – a ‘Obra em Vermelho’ (a rubedo), também é símbolo do “fogo interior” da Sabedoria, da Ciência e do Conhecimento Esotérico interdito aos não iniciados.
O vermelho também incita à ação, é a imagem do ardor que deve animar aos Grandes Inspetores Gerais a uma ação transformadora, tanto interna quanto externamente.
Os imperadores bizantinos se vestiam inteiramente de vermelho e existiam leis que proibiam o uso de esmalte rubro nos brasões, pois era cor exclusiva do Imperador. Assim, indica também poder.
Atingir a “Obra em Vermelho” (rubedo) é o acesso aos “Grandes Mistérios”.
Sobre o vermelho estão representados ossos e crânios.
Os ossos são símbolo de firmeza, de força e de virtude. Também representam o “retorno” e suas possibilidades. No simbolismo bíblico, a revivificação dos “ossos secos” indica a possibilidade de uma restauração. De fato, em algumas culturas, a “essência da vida” encontra-se no tutano. O núcleo dos ossos seria, dessa maneira o “germe” dessa restauração.
O crânio é símbolo do “centro espiritual”, é a “abóbada celeste” do corpo humano. Era utilizado pelos alquimistas em suas operações de transmutação.
Na Maçonaria se reveste do simbolismo do ciclo iniciático: a morte corporal, prelúdio do renascimento em um nível de vida superior.
A presença da coroa, ainda que, em um nível mais imediato, invoque a memória de Frederico II, também simboliza valores que sobrepujam à cabeça, cimo do corpo humano, ou seja, assinala um caráter transcendente de uma realização bem sucedida. Ela une o “coroado” ao que está acima dele e também ao que está embaixo.
A coroa também simboliza dignidade, poder, realeza, o acesso a níveis superiores.
No simbolismo cabalístico, o ápice da “Árvore da Vida” é ‘kether’, ou seja, “coroa”. Exprime o Absoluto, o infinito e sem limitações.
As coroas divinas ou régias eram objeto de culto, unicamente manipuladas por iniciados nos mistérios, eram consideradas seres carregados de poder.
O cetro simboliza também a força e a autoridade, é um modelo reduzido de um grande bastão de comando. É uma “vertical absoluta” que simboliza o homem enquanto tal,  a superioridade desse homem feito chefe e o poder recebido de cima.
É o modelo reduzido da coluna do mundo, o eixo em torno do qual se organiza uma coletividade ou sociedade.
Na Grécia Antiga, o certo simbolizava o direito de fazer justiça e, por isso, pertencia à panóplia das insígnias consulares.
O esqueleto presente no Supremo Conselho é símbolo das operações que precedem as transmutações. Não representa uma morte estática, um estado definitivo, mas uma morte dinâmica, anunciadora e instrumento de uma nova forma de vida.
Seu “sorriso” irônico e seu ar pensativo, simboliza o conhecimento daquele que atravessou a fronteira do desconhecido, daquele que, pela morte, penetrou no segredo do além.
De acordo com Apuleio, na antiguidade circulavam selos ou estatuetas representando um esqueleto, que serviam para realizar operações mágicas. Tais esqueletos eram, supostamente, a imagem de Hermes, deus psicopompo que usufruía do privilégio de pode descer aos infernos e daí voltar.
Petrônio, em seu Satiricon, coloca um esqueleto de prata com articulações móveis em um banquete para simbolizar a morte em geral e a brevidade da vida. Essa visão era destinada a fazer com que os convivas aproveitassem mais aquele momento, tendo em vista que todos os prazeres são efêmeros.
A águia-bicéfala, símbolo onipresente no Grau 33, nas antigas civilizações era símbolo do poder supremo. Nas tradições xamânicas da Ásia Central, é frequentemente representada no topo da coluna do Mundo, situada no meio das aldeias.
A origem da águia-bicéfala é, provavelmente, hitita. Foi retomado pelos turcos seldjúcidas e, destes, foi copiado pelos europeus nas cruzadas para chegar por esse meio indireto às armas imperiais da Prússia.
A duplicação da cabeça reforça o simbolismo da autoridade representado pela águia, rainha das aves, mensageira da mais alta divindade uraniana e do fogo celeste – o sol, que só ela pode ousar fixar sem queimar os olhos. Essa característica simboliza a percepção direta da Luz intelectiva. É símbolo da contemplação, daí a atribuição da águia a São João Evangelista.
Exprime a ascensão e a realeza e é graças a essa segunda interpretação que se tornará símbolo romano do Império e também do Santo-Império medieval.
Dotada de força solar e uraniana (celeste), que a potência com que levanta vôo evidencia, a águia torna-se, em decorrência disso, o pássaro tutelar, o iniciador e o psicopompo.
Na Idade Média, o vôo em descenso da águia era visto como sinal da descida da luz sobre a terra.
A águia romana é essencialmente a mensageira da vontade do alto. Na Grécia, segundo Píndaro, a águia dorme pousada no cetro de Zeus, cujas vontades faz conhecer aos homens.
Fica bastante óbvio que, se compreendermos todos esses símbolos dispostos no Supremo Conselho do Grau 33, entenderemos perfeitamente a mensagem do Grau e poderemos nos esforçar por atingirmos a iniciação REAL nele.

VII. Conclusão

Não tivemos a pretensão de fazer uma análise aprofundada sobre o tema mas, tão somente, apresentar elementos gerais concernentes ao Grau 33 do REAA.
O rito de Iniciação no Grau demandaria análises simbólicas um pouco mais extensas e, por isso, resolvemos não comentá-lo nesse texto.
As funções e as atribuições dadas ao Grau 33 nas diversas fases de seu desenvolvimento, passando pelo famoso “Congresso de Lausanne” (1875), demandariam também a análise de certos desdobramentos históricos o que tornaria o texto demasiadamente longo. Certamente não é esse o objetivo de um texto que se pretende apenas uma visão panorâmica.
Esperamos, em outras oportunidades, analisar aspectos mais particulares do Grau 33, quando teremos ocasião de nos estendermos mais em considerações de caráter histórico e simbólico.