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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O Navegar como símbolo heroico

Julius Evola

Tradução: Marcelo D. Prati 

Se existe uma característica das novas gerações, essa é a superação do elemento “romântico”; o retorno ao elemento épico.
Não interessam mais palavras, complicações psicológicas e intelectualistas, mas sim ação. E o ponto fundamental é este: que, em oposição ao que é próprio dos fanatismos e dos desvios “esportivos” das raças anglo-saxãs, as nossas novas gerações tendem a superar o lado puramente material das ações, tendem a integrar e clarificar tal lado com um elemento espiritual, tornando, mais ou menos conscientemente, naquele agir, que é um liberar-se, um tomar contato real e não estético e sentimental, com as grandes potências das coisas e dos elementos.
Agora, há ambientes naturais que mais particularmente propiciam tais possibilidades libertadoras e reintegradoras da épica e da ação, e são a alta montanha e o alto mar, com os dois símbolos do ascender e do navegar. Aqui, pela via mais imediata, a luta contra as dificuldades e contra os perigos materiais, se faz meio para alcançar simultaneamente um processo interno de superação, para completar uma luta contra elementos que fazem parte da natureza inferior do homem e que devem ser dominados e transfigurados.
Algumas gerações de superstição positivista e materialista têm feito com que tantas belas e profundas tradições da antiguidade sejam sepultadas no esquecimento, ou ainda que sejam tomadas unicamente como objetos de curiosidade erudita; ignorando e fazendo ignorar o significado superior sobre o qual tais estão sempre suscetíveis e que pode ser sempre novamente desperto e renascido.
Isso, por exemplo, se pode dizer sobre o antigo simbolismo da navegação, que é um dos simbolismos tradicionais mais difusos em todas as civilizações pré-modernas, que pode ser encontrado com características de uma estranha uniformidade, que nos faz pensar o quão universais e profundas devem ter sido certas experiências espirituais ante às grandes forças desses elementos. E sobre isso não cremos inoportuno fazer aqui alguma menção:
O navegar - e em particular o atravessar as águas tempestuosas - tem sido tradicionalmente exaltado ao valor de símbolo, enquanto nas águas, como águas do oceano ou águas correntes, figuraram sempre como o elemento instável, contingente da vida terrena, da vida sujeita a decadência, ao nascimento e a morte - e foi, além disso, e mais particularmente representado o elemento passional e irracional que altera essa mesma vida. Se a terra firme, sob um primeiro aspecto, se vale como sinônimo de mediocridade, de existência pávida e pequena, pousada sobre certezas e sustento, cuja estabilidade é completamente ilusória - o abandonar a terra firma, o voltar-se para o vasto, o afrontar intrepidamente a corrente ou o alto-mar, portanto, o “navegar”, surge espontaneamente como o ato épico por excelência, não apenas em sentido imediato, mas também no sentido espiritual.
O navegador se apresentou, então, como sinônimo de herói e de iniciado, como sinônimo daquele que, abandonando o simples “viver”, deseja ardentemente o “mais que viver”, num sentido de um estado superior à decadência e à paixão.
Surge então o conceito da outra terra firme, aquela verdadeira, que se identifica com a mesma metade do “navegador”, com a conquista que é aquela mesma épica do mar: e a “outra margem”, é a terra primeiramente desconhecida, inexplorada, inacessível, dada pelas antigas mitologias e pelas antigas tradições com os símbolos mais variados, entre os quais é, contudo, tão frequente, aquele da ilha, imagem para a firmeza interior, par aa calma e o domínio daquele que felizmente e vitoriosamente “navegou” portando-se entre as ondas ou a impetuosa corrente, mas sem dela tornar-se presa.
O atravessar de uma grande corrente a nado ou como piloto de um navio era fase simbólica fundamental naquela assim chamada “iniciação real” que se celebrava nos Eleuses. Jano, a antiga divindade da romanidade, deus dos começos e ainda, em sentido eminente, da iniciação daquela “nova vida”, era também o deus do navegar; tinha entre suas insígnias características, o navio. E tal navio de Jano, como também duas duas chaves são passadas depois para a tradição católica, figurando na nave de São Pedro e de modo geral no simbolismo da função pontífice. Agora, se poderia observar que o próprio termo pontifex, nas antigas etimologias romanas, significava o “fazedor de pontes”; que pons contudo, arcaicamente, significava também via e como “via” vinha também correlacionado ao mar, e a Ponte vem a ser chamada dessa maneira por nenhuma outra razão que não essa. Onde vemos como que através de uma trama oculta, mesmo em palavras e signos, hoje quase não mais compreensíveis, são transmitidos elementos da antiga concepção do navegar como símbolo.
No mito caldeu do herói Gilgamesh, encontramos um exato fac-simile daquele do Hércules dórico que colhe o fruto da imortalidade do jardim das Hespérides, tendo atravessado primeiro o mar, sob a guia de Atlante, o titã. Também Gilgamesh enfrenta a via do mar, zarpa seguindo a via ocidental, ou seja, a via atlântica, na direção de uma terra, ou ilha, onde ele busca “a árvore da vida”, enquanto o oceano é comparado significativamente às “águas obscuras da morte”. E se nos deslocarmos na direção do oriente e do extremo oriente encontraremos ecos de igual experiência espiritual ligados aos símbolos heroicos e épicos do navegar, do atravessar, do velejar.
Como o asceta budista foi de maneira muito frequente comparado a aquele que enfrenta, corta e vence a corrente, a aquele atravessa, a aquele que navega glorioso contra a corrente, nas águas sendo representado precisamente tudo aquilo que vem da sede animal de vida e prazer, do vínculo do egoísmo e do aprisionamento dos homens = assim, no mesmo extremo oriente se encontra o tema helênico da “travessia” e da chegada na “ilha”, na qual a vida não está mais misturada com a morte: como Avallon ou o Mag Mell atlântico das lendas irlandesas e celtas.
Nos portemos ao Egito antigo e até o México pré-colombiano: direta ou indiretamente encontramos não diferentes elementos. E os encontramos ainda nas lendas nórdico-arianas. A mesma empreitada do herói Siegfried na ilha de Brunhild compreende essencialmente o simbolismo da navegação, da travessia do mar: Siegfried, segundo o Nibelungliedi, é aquele que diz: “As verdadeiras vias do mar me são conhecidas. Eu posso conduzir-vos sobre as ondas.”
Podemos mostrar que a mesma empreitada de Cristóvão Colombo teve mais relações do que aquilo que se conhece com as obscuras ideias sobre uma terra, onde, segundo algumas lendas medievais, se encontrariam “profetas nunca mortos”, sobre um “Elísio transatlântico” que cai precisamente no simbolismo agora dito. Além disso, podemos mostrar porque o conceito do talassocrate, do “senhor dos mares” ou das “águas” muito frequentemente se ligou antigamente com o conceito de legislador num senso superior (por exemplo, no mito pelágico de Minos): poderemos desenvolver a ideia reclusa nas representações daquele “que está sobre as águas” ou “caminha sobre as águas” ou “está salvo das águas” (de Narâyâna a Moisés, a Rômulo, a Cristo) mas tudo isso nos levaria muito longe e talvez retomemos esse assunto em outra ocasião.
“Viver não é preciso. Navegar é preciso”. Tal palavra ainda hoje vive, ainda hoje é sentida e configura uma das melhores correntes da nova épica da ação - “Devemos tornar a amar o mar, a sentir a ebriedade do mar, porque vivere non necesse sed navigare necesse est” deve dizer o próprio Mussolini. Mas em tal fórmula, presa em seu aspecto mais alto, não subsiste talvez o eco daqueles antigos significados?
Não subsistirá talvez a ideia do navegar como mais que vida, como atitude heroica, como configuração de formas superiores de existência?
Quem, lá de onde reina o grande, livre sopro da amplidão, onde se sente toda a força daquilo que é sem limite, seja em sua calma poderosa e profunda, seja em sua terribilidade elementar - que sobre mares e sobre oceanos novas gerações saibam dar “epicamente” à existência física do navegar, uma alma metafísica, tanto para conferir conferir ao mesmo heroísmo e à mesma coragem o valor de um meio transfigurante e para ressuscitar assim aquilo que se trancava nas antigas tradições do zarpar e do navegar como símbolo e do mar como via através de algo que não é nem mais e nem apenas humano - isso nos parece um dos pontos mais altos que podem orientar a força de ressurreição ativa na nova Itália.

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Jano

Julius Evola

Tradução: Marcelo D. Prati

Em várias ocasiões, e não de agora, temos sublinhada a oportunidade de integrar o arranjo político existente entre a Itália e a Alemanha com um acordo espiritual, procedente daquilo que entre os dois povos pode existir de comum no fato das tradições e de visões gerais de mundo. Tais elementos comuns espirituais são, contudo, tão numerosos e importantes, quanto mais a nós se refaz às origens e a nós se propõe a considerar o mundo das origens com um olhar diferente daquele racionalista e ignorantemente acadêmico do “cientificismo”. As origens das quais aqui se trata, correspondem à antiga civilização indo-germânica, da qual tanto aquela romana antiga quanto aquela nórdico-germânica são duas ramificações particularmente afins. E o método agora destacado é aquele que nas religiões e nas mitologias antigas não se consideram como superstições, como criações fantásticas ou divinizações de simples fenômenos naturais, mas sim como formas simbólicas e dramáticas de expressões de significados cósmicos, de forças viventes, de princípios metafísicos.

Gostaríamos então de assinalar aqui uma obra alemã recente, perfeitamente relacionada a essa ordem de ideias, porque ela organiza os elementos, segundo os quais temas importantes da antiga religião romana e daquela nórdica vêm a corresponder e a por em evidência um ao outro. Se trata da monografia de Otto Hunt, sobre o antigo deus romano Jano, publicada pela editora Röhrscheid de Bonn. Desde a primeira página desse valioso trabalho, o autor afirma o princípio de que “no processo de exploração da religião itálico-romana, conduzida por via comparativa, é necessário, sobretudo, ter presente, por fins de integração, o ciclo da civilização germânico-alemã”. As pesquisas que seguem confirmam a fecundidade de tal princípio e mostram o alto grau de afinidade existente entre as tradições espirituais dos dois povos, não apenas na essência, mas mesmo em muitos detalhes e nas formas exteriores. Além disso, partindo de tais comparações e de tais pesquisas se acende uma nova luz sobre o significado de umas das divindades mais antigas de Roma, que é precisamente Jano, equivalente a uma verdadeira e própria reavaliação do próprio.

Na opinião oficial dos especialistas, Jano foi o deus especial da porta (ianua), associado a Vesta, a deusa do fogo doméstico. Como deus da porta, Jano foi também a divindade de todo início, por via da correspondência do entrar com o começar. Apenas a especulação do período imperial elevou tal antigo, mas modesto nume ao nível de um criador do mundo.

A pesquisa de Huth demonstra, em vez disso, que tal significado de Jano é, na verdade, o original, devidamente degradado e obscurecido e que na figura de Jano se encontram e sintetizam-se vários motivos de fundamental importância da antiga concepção romana (e de modo geral, ariana) do mundo e da vida.

É já antiga tradição, testemunhada por Varrone e Macrobio, que Jano seja criador (cerus), pai dos Deuses e dos homens, venerado pela antiga estirpe patrícia como o ancestral originário de seu cepo. O conceito de “senhor dos começos” é o elemento primário, a referência à “porta” é o secundário, de peso puramente simbólico. Vários dados dão como certo, contudo, que Jano fosse um deus do ano, uma figuração, ou seja, do ano como manifestação de uma força divina e solar. Como na antiga concepção nórdica, o sol é a “luz dos homens” e a “vida”, que no ano possui seu ciclo, morrendo e ressurgindo, assim o antigo culto romano de Jano cobriu os mesmos significados, a facilmente notável duplicidade de tal deus (Jano bifronte) correspondeu à duplicidade da fase ascendente e descendente do sol; a dupla porta (bem como dupla chave) a ele atribuída estaria em relação com os dois soltícios, “porta do ano”; o posicionamento das festas principais a ele prestadas exatamente nas datas aproximativas do solstício de inverno, ou “Natal”, com o qual na antiguidade se começava o ano, sublinhava o caráter de Jano como “senhor do início”, enquanto seu atributo de deus das fontes e das correntes faria alusão à força vital (as águas geradoras) através do ciclo, o ano cósmico, assim como aquele de uma vida humana. A festa do renovo anual do fogo sacro em Roma, depois da extinção daquele antigo, consagrado a Vesta, companheira de Jano, se baseia no fundo sobre uma repetição desse mesmo significado.

É absolutamente impossível, aqui, não apenas explicar, mas também destacar os muitos outros símbolos, dos quais Huth mostra a íntima conexão com o culto de Jano. Sua pesquisa, de resto, poderia ser ainda mais desdobrada e desenvolvida, sobretudo naquilo que diz respeito ao domínio da iniciação, ou seja, das experiências interiores transcendentes, na qual o simbolismo de Jano (e de sua mesma duplicidade) possui uma parte muito importante. Aqui, a investigação de Huth é um pouco limitada ao fato de considerar sobretudo o simbolismo solar e “anual” do antigo deus romano. A ele, todavia, não escapa que a “porta” e a “passagem pela porta”, possuindo o duplo sentido de um sair e um entrar, de um fim e um início, encarna também a ideia de um morrer e nascer, ou seja, de um “renascer”, no que consistia essencialmente a iniciativa. Por nossa conta acrescentaremos que a dupla chave e a dupla face de Jano tinha relação, dentre outras coisas, com os “Pequenos Mistérios” e os “Grandes Mistérios” da antiguidade mediterrânea, “telúricos” uns, “celestes” os outros: e não é sem interesse destacar que esse símbolo iniciático de Jano, da dupla chave, assim como aquele do “navio” (que não possui apenas o significado de navio que transporta o “sol”, mas também aquele de navio com o qual se completa a simbólica travessia das “águas”) foram sucessivamente assumidos pela Igreja católica.

A porta como “mundus”, na antiga Roma valia também como o local de acesso ao mundo de forças subterrâneas, invisíveis, demoníacas ou divinas, mas em todo caso temíveis por todos os seres mortais. O abrir da porta, o atravessar da porta, que se dava sob o signo de Jano, simbolizava, sob tais bases, em termos gerais, o tomar contato com tais forças, o eclodir da disposição a tais forças: empreitada que poderia ter por consequência tanto a destruição quanto a divinização.

Um rito romano consistia em abrir, ao início de cada guerra, as portas do templo de Jano: rito que se refere à concessão sacral e sobrenatural que a Roma antiga, bem como qualquer outra civilização ariana, possuía sobre a guerra. De Huth não escapa esse ponto tão interessante, ainda que por enquanto não tenha dado todos os possíveis desdobramentos do tema. Abrir as portas do templo de Jano em uma guerra era como proceder a uma evocação elementar, ao desencadeamento, liberação, de forças profundas, sobrenaturais. Entrar em guerra e encontrar-se com tais forças, para o guerreiro e herói, era a mesma coisa: tal como em Roma e em Esparta, como entre os antigos nórdicos e entre os Arianos da Índia. Os caídos celebravam um tipo de sacrifício divino, propiciador de frutos sobrenaturais: mors triumphalis.

O vencedor, por outro lado, surgia como alguém que mesmo vivo “ultrapassou o limiar”, conseguiu, atravessando a glória, uma espécie de iniciação e de renascimento interior. Onde o caráter não militar, mas essencialmente sacro, da cerimonia romana do triunfo, na qual o vencedor se revestia dos mesmos signos da divindade olímpica.

Desejando daqui proceder a novas conexões, jamais se terminaria e acabaríamos por repetir coisas que em vários livros já expusemos mais vezes. Concluiremos então dizendo que estudos, sobre o gênero aqui assinalado, possuem uma importância que em nada deve ser negligenciado: dos antigos mitos e símbolos podem chegar a nós palavras vivas, grandes significados cósmicos, solares e heroicos, quando esses são capazes de fazer vibrar aquilo que em uma raça foi passado à obscura zona do subconsciente, mas que, todavia, é indestrutível, porque está conectado à “tradição”, à força formadora das suas origens.

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O Nome de Itália


Julius Evola

Tradução: Marcelo D. Prati

As antigas tradições estavam de acordo com a afirmação de que o nome de Itália, o qual posteriormente deveria designar toda a península apenina, originalmente designava apenas sua parte meridional. Quanto ao significado da palavra, partindo de várias pesquisas, como aquela do notável romanista Franz Altheim, concluímos com suficiente segurança que Itália significa “o país dos bois” ou dos “touros”. Tal termo não deve contudo ser preso em seu simples sentido literal; dentre outras razões, é pouco provável que o país assim designado fosse caracterizado por uma particular abundância de rebanhos, tão grande que fosse capaz de justificar tal denominação. O tema do touro deve ser, mais que isso, relacionado ao plano religioso. As pesquisas que temos destacado, se referem efetivamente a tal plano. É confirmado, entre tais antigas populações, o culto do deus-touro e a presenta de seu símbolo na arte funerária. Alguns cepos itálicos se consideravam eles próprios como “touros” e usavam elmos com chifres taurinos. Os guerreiros que combatiam portando semelhantes elmos deviam sentirem-se como “touros”. Esses lutavam no signo do deus-touro, o qual não é privado de relações com o próprio deus Marte arcaico: quase imagens diretas daquele deus.
Os relatos sobre o deus-touro na Itália se estendem, além disso, à Etrúria e particularmente à Sardenha, enquanto em Roma existiram traços, por exemplo, o nome de algumas pessoas (a gens Vitellia) e em jogos rituais com touros ou sacrifício de touros – os antigos taurii ludi confirmados por fragmentos de inscrições e oferendas aos deuses inferiores. O conjunto de tais considerações é de particular importância para a história das origens itálicas.
É de fato algo bem conhecido entre os estudiosos de história das regiões que o culto do deus-touro foi comum na mais antiga civilização mediterrânea. Tendo por particular centro Creta (onde se encontra também o modelo dos destacados jogos sacros com os touros: um tipo de corrida ritual pré-histórica), estendendo-se por um lado até ao litoral asiático e tendo do outro lado ramificações que chegam aos Baleares e à própria Espanha.
Aparenta-se assim quase certa a relação da civilização itálica pré-romana, onde ocorre o motivo do deus-touro e onde o mesmo termo “touro” daria nome ao país, ao ciclo daquela antiga civilização “mediterrânea” que precederia a civilização propriamente grega e, de modo geral, indo-europeia. Mas nas pesquisas sobre suas origens, tal constatação não constitui mais que um resultado parcial. Os povos, que de modo mais generalizado foram chamados de itálicos, que se silenciaram depois de Roma, confirmam também um componente étnico diverso, não redutível ao antigo substrato “mediterrâneo”. Tal elemento heterogêneo se conecta com grande probabilidade a migrações pré-históricas, em nossa península.
É mérito do autor acima indicado, Altheim, ter posto em destaque a importância que, nessas pesquisas, possuem as inscrições e desenhos sobre rocha encontrados em Val Camonica. Esses constituem um dos poucos traços, que restam quase intactos, de tais antigas migrações. É incontestável a afinidade de tais traços – falando do estilo e dos tipos de símbolos – com aqueles que se encontram não apenas na Europa central, mas também na arte rupestre sul escandinava. Um ponto particular de merece ser levado em consideração: enquanto na arcaica civilização mediterrânea, a qual foi o próprio deus-touro, o elemento feminino (das mães, das mulheres divinas) teve particular destaque, um certo elemento falta de todo nele, nos traços de Val Camonica e naquelas civilizações nórdicas afins, onde predominam, em vez disso, símbolos solares e astrais. A diversidade dos símbolos deve ter correspondido a uma diversidade étnica; ondas de povos indo-europeus devem ter adentrado àquela, que era a “terra dos touros”, como expoentes de um espírito diferente.
Ao próprio Altheim se deve o esboço de um interessante paralelismo. Foi o movimento dos povos ilírios que provocaram a migração dos cepos que, em ondas sucessivas, adentraram à Grécia e à área do Egeu, criando, de encontro às antigas formas “mediterrâneas”, ou em interferência com essas, a civilização propriamente helênica. A última de tais ondas foi aquela dórica e a sua conclusão foi Esparta. Assim, o mesmo movimento dos ilírios, que avançaram também na região do Veneto, forçando os cepos já imigrados na Itália, os quais conectamos aos traços de Val Camonica, a uma nova marcha na direção do Sul. Tem-se então na Itália, um análogo da migração dórica. E como essa se conclui com Esparta, assim a imigração itálica, sendo através de eventos mais complexos e de mais dificultosa reconstrução, se conclui com Roma.
O paralelismo que diz respeito a dureza de vida, de ética guerreira, de virtude viril, incontestavelmente existente entre Esparta e a mais antiga Roma, parece convalidar “a posteriori” tal sugestiva hipótese. Por um ciclo, ao mesno, por obra de Roma, a Itália não seria uma província da arcaica civilização “mediterrânea” do deus-touro e das divindades femininas ligadas à terra. Se Roma reaviva partes notáveis da antiga herança itálica, a essas imprime uma forma própria e suscita um espírito diferente. Como na Grécia, e também, em parte, por influência grega, dos deuses da terra e das profundezas inferiores, a ênfase foi mudada lentamente na direção daqueles luminosos do céu e do Estado - até o período de sua decadência.


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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O Natal Solar

Julius Evola

Traduzido do italiano por Marcelo D. Prati


Dentre os outros, dois resultados, não em pouco tempo devem conduzir a doutrina da raça a um plano espiritual: em primeiro lugar, com um retorno às origens, essa deve trazer de volta à luz os significados mais profundos das tradições e dos símbolos, que foram obscurecidos no curso dos milênios, dos quais sobreviveram não mais que fragmentos esparsos, deteriorados em costumes e festas convencionais. Em segundo lugar – e não sem relação a isso – a doutrina da raça deve despertar a sensibilidade para uma concepção vivente de mundo e da natureza, para limitar o poder daquela racionalista, profana, cientificista e fenomenicista, que seduziu o homem ocidental por séculos até hoje. E, sobre tal senso vivente e espiritual das coisas dos fenômenos, os melhores pontos de referência podem ser dados, sobretudo das concepções “solares” e heroicas, que as mais antigas tradições arianas possuíam precisamente.
Bem poucos suspeitam que as festas atuais, que ainda hoje, no século dos arranha-céus, do rádio, dos grandes movimentos de multidões, se celebram e tanto as cosmópoles quanto as trincheiras, máquinas de guerra e massas combatentes, dão continuidade a uma tradição remota, que nos leva a tempos quando, num período próximo da aurora da humanidade, se iniciou o movimento ascendente da primeira civilização ariana; uma tradição na qual, contudo, se exprime menos uma crença específica dos homens, que a grande voz das mesmas coisas.
Desejando aqui dizer algo sobre isso, antes de qualquer coisa, vamos relembrar um fato que por muitos é ignorado, quero dizer, que a origem da data do Natal e aquela do início do novo ano coincidiam, não sendo essa uma data arbitrária, mas conectada com uma precisa ocorrência cósmica, no solstício de inverno. O solstício de inverno cai justamente em 25 de dezembro, que é a data do Natal conhecida desde então, mas que em suas origens, possuía um significado essencialmente “solar”. Ele aparece ainda na Roma antiga: a data natalícia na Roma antiga era aquela do ressurgir do Sol, deus invencível – Natalis solis invicti – Assim, como diz do sol novo – dies solis novi – na época imperial se iniciava o ano novo, o novo ciclo. Mas tal “natal solar” de Roma do período imperial, por sua vez, remonta a uma tradição ainda muito mais remota, de origem nórdico-ariana. Do mais, o Sol, a divindade solar surge já entre os dii indigetes, ou seja, entre as divindades das origens romanas, recebidas dos ainda mais longínquos ciclos de civilizações. Na realidade, como diremos, a religião solar do período imperial, em larga medida, possuiu o significado de uma retomada e quase de um renascimento, infelizmente alterada por vários fatores de decomposição, de uma antiquíssima herança ariana.
Mesmo a pré-história itálica pré-romana é rica de traços do culto solar: carros solares, discos, discos radiados, estrelas radiadas, cruzes de todo tipo, sem excluir as cruzes gamadas gravadas, por exemplo, em machados arcaicos descobertos em Piemonte e na Ligúria. Dessa maneira se pode constatar a passagem, na Itália antiquíssima, da mesma tradição que deixou, desde a idade da pedra, traços semelhantes ao longo de todo o itinerário das grandes migrações ário-ocidentais e nórdico-arianas. Símbolos, signos, hierogramas, notações calendárias ou astrais rudimentares, figurações sobre vasos, armas ou ornamentos, enigmáticas disposições de pedras rituais ou de cavernas, depois, mais tarde, ritos e mitos sobreviventes em civilizações tardias, se estudados segundo os novos pontos de vista próprios à investigação espiritual e racial do mundo das origens, oferecem ainda testemunho concordante e unívoco não apenas sobre a presença de um culto solar unitário como centro da civilização dos povos arianos primordiais, mas também sobre a importância especial que nesse possuía a data “natalícia”, vale dizer, aquela do solstício de inverno, o 25 de dezembro.
A fim de evitar equívocos, será contudo, bom recordar a uma certa classe de leitores, os quais, nesta sede já tivemos a chance de notar, vale dizer, que falando de um culto solar pré-histórico não se deve em nenhum momento pensar em formas inferiores de uma religião “naturalística” ou idolátrica. É uma estupidez pensar que a antiga humanidade e sobretudo a grande raça ariana divinificasse supersticiosamente os fenômenos naturais – a verdade é o contrário disso, que a antiguidade concebia os fenômenos naturais essencialmente como símbolos sensíveis de significados superiores, espirituais – assim, mais ou menos como espontaneamente sustentados oferecidos aos sentidos pela natureza para que fossem capazes de serem contemplados tais significados transcendentes. Que as coisas, entre a parte menos qualificada de um dado povo antigo, às vezes, possam ter ocorrido de outra maneira, tal fato pode ser relacionado, mas evidentemente prova assim pouco, sobre o fato não raro do passar em forma de superstição escrupulosa e detalhada mesmo em alguns cultos cristãos, em certos povos incultos e fanáticos do sul.
Prevenido assim um notável mal entendido, o significado simbólico das expressões arcaicas arianas, como “luz dos homens”, ou “luz dos campos” – landa ljòme – dadas ao sol, deve tornar-se claro e se pode também compreender que exatamente o inteiro curso do sol no ano, com as suas fases ascendentes e descendentes, se apresentassem da mesma maneira nos termos de um grandioso símbolo cósmico. Em tal evento solar, o solstício de inverno constitui uma espécie de ponto crítico, vivido segundo uma particular dramaticidade no período o qual a estirpe ariana originária ainda não tinha deixado as regiões nas quais sobrevinha o clima ártico e o pesadelo de uma longa noite. Em tais condições, o ponto de solstício de inverno – o mais baixo da eclíptica – aparentava como aquele em que a “luz da vida” parecia extinguir-se, tramontar, submergir na terra desolada e gelada ou nas águas ou entre as profundezas das selvas, de onde, contudo, subitamente outra vez se ergue a resplandecer com novo fulgor. Aqui brota uma vida nova, se põe um novo início, se abre um novo ciclo: A “luz da vida”, se reacende. Brota ou nasce das águas o “herói solar”. De além da obscuridade e do gelo mortal vem viva uma liberação. A simbólica árvore do mundo e da vida se anima de nova força. É em relação a todos esses significados que já nos tempos pré-históricos anteriores de milênios à era vulgar, que uma quantidade de ritos e de festas sacras se dispuseram a celebrar a data de 25 de dezembro, como data de nascimento ou renascimento, no mundo assim como no homem, da força “solar”.
Pouco se sabe que mesmo a tradicional árvore de natal, ainda um costume em muitos países e em parte também na Itália, mas na forma de uma atividade infantil ou, no máximo, de boas famílias burguesas, é um eco residual próprio de tal antiquíssima, estrita tradição ariana é nórdico-ariana. Uma tal árvore, extraída de uma “sempre-viva”, semper virens, ou seja, da planta que não morre no inverno, pinho ou abeto, reproduz a árvore arcaica da vida ou do mundo, que no solstício de inverno se ilumina de nova luz, o que é expresso exatamente pelas luzinhas com as quais a adornamos e que são acendidas em tal data. E os “presentes” dos quais tal árvore se enche – hoje meramente regalos para crianças – representam efetivamente o simbólico “dom da vida” pertencente à força solar que nasce ou renasce. Mas o momento em que o semper virens, a planta que não morre, se renova e se ilumina no simbolismo primordial, também aquele, como se diz, o “herói solar” surge das águas do mesmo modo que, segundo um mito continuado até o Medievo gibelino depois de ter tido parte importante nas lendas relativas a Alessandro Magno, a árvore cósmica é também uma árvore “solar”  possuidora de uma íntima relação com a assim chamada “árvore do império” – arbor solis, arbor imperii.
Tal fato nos  leva a considerar um outro aspecto bastante interessante das tradições verbais, pelo qual desejamos particularmente referir-nos à antiga romanidade.
O mithraismo, ou culto de Mithra, como se nota, é a forma tardia assumida pela antiga religião aria-iraniana (mazdea), em uma formulação particularmente adequada a uma mentalidade guerreira. Difundido tal culto na romanidade, sob Aureliano a data do “natal solar” ou solstício de inverno, o 25 de dezembro veio a se identificar com a celebração do Natalis Invicti, ou seja, o nascimento de Mithra considerado como um herói “solar”.
Ao redor do mithraismo em Roma, como se destaca, seria muito superficial, para não dizer grosseiro, falar sic et simpliciter de “importações” ou “influências orientais”: o oriente daquele tempo era uma coisa bastante complexa, na qual figuravam elementos muito heterogêneos – mas dentre esses, indubitavelmente, também partes importantes e incorruptas da herança espiritual dos povos arianos e indo-europeus. No que diz respeito à relação que foi estabelecida entre Mithra e o “natal solar” romano, um notável estudioso pode observar muito corretamente, que isso não é uma alteração, mas em vez disso, é uma renovação do calendário romano segundo o qual seu antigo aspecto astronômico e cósmico que possuía nos tempos primordiais de Rômulo e de Numa e que conferia às festas o significado de grandes símbolos na coincidência das datas de tais com grandes eras da vida do mundo.
Depois disso, é importante examinar o atributo de invictus-aniketos – dado a Mithra – ao herói solar na nova concepção romana. É um atributo “triunfal”. Nas tradições originárias ario-iranianas e afins, esse é o atributo de toda natureza celeste e eminentemente do sol, enquanto a luz que vence as trevas, força luminosa urânica sobre a qual jamais aquelas da noite e da escuridão prevalecerão. Mas em Roma, vemos que o mesmo epíteto invictus torna-se um título imperial, cesáreo e nós sabemos que o mithraismo, mais do que o culto de uma divindade abstrata, torna-se “indutor” – por assim dizer – da mesma qualidade de Mithra nos iniciados, por meio de uma certa transformação de sua natureza. É então, evidente a tendência a compreender também de modo simbólico e analógico o atributo “solar”, de modo a poder fazer valer para o homem e propriamente a demarcar o tipo e o ideal de uma humanidade superior – para não dizer, verdadeiramente, uma “super-humanidade”. Como o sol ressurge, perenemente vitorioso sobre as trevas, de igual maneira, em uma perene vitória interior sobre a natureza mortal e instintiva se traz à completude um ser, que uma mística virtude age, regularmente, eminentemente à função de rei, de líder, de dirigente. É assim que em Mithra, o “herói solar”, foi venerado em Roma um fautor imperii; é assim que se estabelece uma íntima relação do simbolismo solar com as ideias de realeza e de império, em sua mais alta forma.
Tal relação seria destaque particular nas tradições heroicas dos antigos povos arianos, e nós, nesse mesmo local, já falamos dela, tratando da doutrina mística da “glória”. Não desejando repetir, portanto, coisas já ditas, nos limitaremos a relembrar da presença desses mesmos significados na antiga Roma. A victoria Caesaris, ou seja, a mística força triunfal que, no símbolo de uma estatueta, de um César era transmitido a outro, reflete exatamente as mais antigas tradições ario-iranianas em volta da realeza e o assim chamado hvarenô: pois, como já dissemos no artigo relembrando, o hvarenô se vale como uma misteriosa força “solar” de invencibilidade e de “glória” que investe o dirigente, faz desse algo de mais que simples homem e a ele testifica sua certa vitória.
Uma antiga efígie romana de Sol representa esse deus simbólico com a mão direita elevada em gesto “pontifical” de proteção e com a esquerda segura uma esfera, símbolo do domínio universal. Em outra imagem, se vê, contudo, o mesmo deus que transmite o globo ao imperador, junto das inscrições, as quais se referem exatamente à “solaridade”, estabilidade e ao imperium de Roma: Sol conservator orbis, Sol dominus romani imperii. Outro medalhão particularmente interessante possui no centro a imagem laureada do imperador – com a cabeça cingida pelo semper virens, de impecáveis ramos: atrás está o deus solar com a esfera, mas ainda, próximo, uma cruz gamada (que vemos ainda presente também na Roma antiga) e os dizeres: soli invicto comiti – ou seja: ao deus solar, companheiro invencível. Ainda uma imagem – conservada no Museu Capitolino – nos mostra a associação do símbolo do Sol Sanctissimus com a Águia, com o animal fatídico de Roma, que se pensava fosse também aquele, através do qual o espírito transumado dos imperadores mortos vinha simbolicamente carregado da pira funerária no céu. Demonstrações análogas podem ser facilmente multiplicadas. Não é arriscado dizer que esses nos falam de um verdadeiro e próprio “mandato divino solar” qual alma viva daquela função imperial cesárea, que, para nós, no mundo antigo, foi uma espécie de último meneio de significados arcaicos, pouco a pouco perdidos.
Na antiga semana romana, o “dia do sol” era o “dia do senhor” – e esse significado sobreviveu nos tempos sucessivos com o termo de domingo (domenica), vindo de dominus, senhor, assim como na designação germânica sonntag ou em inglês Sunday para o mesmo dia de “festa” se conservou literalmente o significado de “dia do sol” e com isso, o reflexo da antiga concepção solar ariana. Algo da sabedoria dos primórdios parece assim estar conservado, de alguma maneira, na mesma festa anual do Natal, mesmo que a celebração do ano novo esteja dela dissociada. O simbolismo da luz permanece – se recorda, por exemplo, a palavra do prólogo do Evangelho de João: erat lux vera, quae illuminat omnem nominem venientem in hunc mùndum – assim como o atributo de “glória”, que surge um pouco mais abaixo. Em traços monumentais do primeiro período romano o mesmo símbolo da cruz se une àquele solar.

Na tradição ariana e nórdico-ariana e na mesma Roma, o mesmo tema foi uma carga não apenas religiosa e mística, mas sacra, heroica e cósmica ao mesmo tempo. Foi a tradição de um povo, ao qual a mesma natureza, a mesma grande voz das coisas, falou naquela data, de um mistério de ressurreição, de nascimento ou renascimento de um princípio não apenas de “luz” e de nova vida, mas também de um imperium, no senso mais alto e augusto do termo.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

A Cruz Gamada

Julius Evola

Tradução do italiano: Marcelo D. Prati 


Sobre o signo, que a nova Alemanha elevou a propriamente um emblema, vários autores já escreveram. Se nós aqui retomamos a discussão, é por tratar-se de um ponto de vista especial, considerando essencialmente as tradições primordiais e os significados superiores universais potencialmente contidos naquele símbolo.
De onde vem, primeiramente, a “cruz gamada”? E seria verdade que essa seja o símbolo de um tipo de raça, daquela ariana ou indo-germânica? É o que alguns círculos no século passado pensaram e o que ainda hoje alguns continuam a supor. Ernst Krause e Ludwig Mueller sustentaram exatamente a opinião de que esse símbolo nos tempos antigos estaria presente apenas nos cepos indo-germânicos. Uma tese assim se mostra agora insustentável. Isso se dá pela difusão do símbolo, destacada por pesquisas posteriores. Já em 1896, o americano Thomas Wilson possuía um pedaço de papel, na qual se encontrava claramente uma cruz gamada, até em locais que, como a Califórnia, a Coréia, a Mesopotâmia, a América Centra, o Japão, a África setentrional, etc., não possam seguramente corresponder a antigos assentamentos da raça indo-germânica, a qual naquele tempo era concebida, e não se deve também esquecer que o símbolo em questão se encontra muito antes do surgimento dos alemães e também na pré-história itálica (gravado, por exemplo, em alguns machados rituais encontrados em Piemonte e na Ligúria) e surge na própria civilização romana, chegando a figurar em algumas moedas imperiais.
Além disso, devemos fazer uma consideração inicial, vale dizer que todo símbolo verdadeiro, por natureza, é universal. Assim, por mais que um símbolo possa ser assumido prevalentemente por uma determinada raça ou religião, ele não pode nunca constituir um monopólio dessa. Isso vale para símbolos como o círculo com um ponto central, a estrela de cinco ou seis pontas (que erroneamente se crê um símbolo exclusivamente hebraico), a cruz simples e assim por diante, até a própria cruz gramada ou curvada, como se queira dizer. Se for o caso de se colocar agora o problema a cerca da raça, que, originalmente adotou prevalentemente esse ultimo símbolo, muito mais do que falar-se de raça indo-germânica, indo-européia ou ariana num senso genérico, é necessário referir-se a um cepo humano ainda mais antigo e originário, que alguns chamam de pré-nórdico e que nós designamos como hiperbóreo. Se retrocede assim a muitos milênios antes da era vulgar e, em realidade, não erroneamente alguém já chamou a cruz gamada de das Gletscherkreuz, ou seja, a “cruz dos glaciais”, tal signo incidindo já no fim do período glacial, quando se iniciaram as emigrações da antes citada raça hiperbórea. Tais migrações, na medida em que se é possível reconstituir com certa verossimilhança, explicam em parte a presença da cruz gamada em zonas, nas quais há muito tempo passaram a habitar raças diferentes das descendentes daquele cepo humano primordial. Se pode, portanto pensar que em parte o símbolo tenha sido transmitido, enquanto, em outros casos, pode ter se apresentado através de uma via independente ao espírito humano, através do precisamente citado caráter universal e objetivo de todo símbolo verdadeiro.
E agora vamos ao significado da cruz gamada. As interpretações mais comuns são que esse seja um símbolo solar e símbolo do fogo. Como símbolo solar exprimiria o movimento de rotação do astro diurno. Seria então símbolo do fogo porque sua forma reproduziria aquela dos utensílios de madeira, com os quais antigamente, alguns povos arianos, por confricção, acendiam a chama. Essa é a intepretação mais exterior, que, todavia, pode servir de base para interpretações mais altas, correspondentemente a tal hierarquia de significados que todo verdadeiro símbolo tradicional sempre compreende.
Primeiramente, a cruz gamada como símbolo solar nos conduz ao culto solar. Dessa maneira a encontramos, por exemplo, como signo de Visnhu e em objetos rituais pré-históricos, ligados a cultos “urânicos” (ou seja, celestes), tais como, por exemplo, aqueles relacionados com o relâmpago. Nesse ponto deve-se, porém, imediatamente prevenir o preconceito “naturalístico” – ou seja, a suposição de que as grandes civilizações antigas em seus cultos meramente divinificavam supersticiosamente os fenômenos naturais. É exatamente o contrário que corresponde a verdade, ou seja, que em tais cultos ancestrais os mesmos fenômenos da natureza se valiam como grandiosos símbolos cósmicos para forças rituais – e apenas a tolice “positivista” é que foi capaz de se fazer crer em algo de diferente, não obstante a quantidade de precisos e concordantes testemunhos que, sobre isso, se podem encontrar nas civilizações mais diversas.
Partindo de tal constatação, o culto solar se refere, portanto, a uma força espiritual luminosa, a exatamente aquela pela qual, usando um simbolismo análogo, se podia falar de uma vida, que é a “luz dos homens”. E em figuração romana, a cruz gamada é encontrada associada justamente com a “árvore da vida”. Tal religião da luz, com grande recorrência do motivo “solar” e nas formas mais altas, olímpica, se encontra como característica em todas as principais civilizações arianas criadas a partir do já dito cepo hiperbóreo. Essa se contrapõe ao caráter “telúrico”, demoníaco ou feminino-naturalístico próprio dos cultos das raças não arianas, os quais voltaram sua atenção sobretudo às forças invisíveis simbolizadas pelos elementos da terra, do mundo animal e da vegetação ctônica.
Vamos agora um passo adiante e observemos antes de qualquer coisa, que entre o sol e o fogo divino foi sempre concebida uma íntima relação, confirmada particularmente pelos antigos testemunhos arianos do Oriente e do Ocidente. Em segundo lugar, recordemos a outra relação concebida entre a realiza, a função do império de modo geral, o mesmo caráter de uma super-raça ou raça ou casta dominadora e, de outra parte, o motivo solar. Nas tradições primordiais, aquilo que aparece mais distintamente: encontramos uma mística “solar” da realeza e da glória. Como o agni-rohita, o fogo védico que é “força real conquistadora”, como o paleoegípcio ânshûs, fluido ígneo de força e de vida portado pelos monarcas, assim também o iraniano-ariano hravenô portado por toda a raça ariana, mas concentrado sobretudo em seus líderes, é uma chama celeste, um fogo solar. E Cumont demonstrou que na estatueta dourada , que os Césares passavam de um ao outro como signo do poder, é uma personificação de tal mesma mística e fatídica força, surgida já entre os helenos, aquela do “destino” de uma cidade ou de uma nação.
Baseado em tais ideias, chegamos imediatamente  na certeza de um dos significados superiores próprios ao simbolismo da cruz gamada: essa pode portanto nos direcionar a um princípio que gera fogo e chama, mas num senso superior: é aquela chama e aquele fogo que novamente nos leva ao culto ariano do sol e da luz, é aquele fogo simbólico que teve tanta participação no antigo culto familiar patrizio, é aquele fogo místico, finalmente, que nos líderes e nos soberanos possui sua suprema manifestação. Portanto, no sentido mais alto, a cruz gamada, a “cruz das geleiras” pode ser considerada o misterioso selo da mesma espiritualidade primordial, que passou a manifestar-se e a iluminar-se nas várias castas ou raças dominadoras, afirmando-se diante de forças de cepos inferiores em todo um ciclo de civilizações antigas. Nessa, não pode ser portanto mais que uma distante referência análoga a um instrumento material, que gerava o fogo ou a chama. Em primeiro plano permanece, pelo contrario, o significado sacro e espiritual.
Não desprovido de relação com isso, devemos agora dizer algo sobre a cruz gamada como um “símbolo polar”. Chamamos a atenção para o fato de que, embora tenhamos falado de raças hiperbóreas e de geleiras, aqui não temos a intenção de referir-nos às regiões árticas. Temos em vista, em vez disso, o simbolismo do polo, que, nas tradições originárias é também estritamente ligado com a ideia que se tinha da verdadeira função da realeza. Segundo tal visão, o centro representa a estabilidade, o ponto imóvel em torno do qual se expande o movimento ordenado das forças que dele dependem. Assim lê-se, por exemplo, em Kong-tze: “Aquele que domina por meio da virtude celestial, se assemelha à estrela polar: essa permanece imóvel em seu local enquanto todas as estrelas giram ao seu redor”. Aqui se pode notar a noção aristotélica do assim chamado “motor imóvel” retoma teologicamente a mesma ideia (aquilo que se move sem mover-se): ideia que, além disso, a nossos objetivos, nos interessa retomar em uma particular doutrina ariana, aquela do cakravartí.
O cakravartí representa uma espécie de forma-limite da ideia imperial. É a figura de um “senhor universal” ou “senhor do mundo”, geralmente. O termo, todavia, literalmente significa “aquele que gira a roda” – disso se entende aqui como a roda do regnum, surgindo ele como o centro, polo ou ponto imóvel que sustém o movimento regular dessa. Temos aqui então um tema duplo: de um lado, a ideia de um movimento rotatório, que em certos casos aparece também como movimento irresistível e ardente (de acordo com aquela antiga doutrina, aqueles que são predestinados ao império deveriam ter a visão de uma roda celestial giratória semelhante a um redemoinho); e por outro lado, a ideia “polar”, ou seja, aquela de um ponto imóvel, portanto com algo de sereno, de perfeitamente comandado, de “olímpico”, testemunha de uma natureza superior.
No signo da cruz gamada podemos encontrar exatamente precisamente esses dois elementos. Guénon destaca exatamente que se isso, sob um certo olhar, pode ser considerado como um símbolo do movimento, não se trata contudo do simples movimento, como pretendem alguns, mas sim de um movimento de rotação que se realiza completamente em torno de um centro ou de um eixo imóvel: e o ponto fixo é o elemento essencial sobre o qual se refere o símbolo em questão. O mesmo se deve pensar pois, se tal movimento se referisse ao Sol: não se trata de um simbolismo relativo ao perene evento de nascimento e tramonto da luz, mas de um signo que, para além de tal evento do Sol, vem a conceber essa força também como algo de central, de imutável, de olímpico, ao ponto de chegar, se assim se deseja, a uma antecipação confusa, alcançada através de significados religiosos, da moderna visão copernicana. Tendo isso à parte, se confirmam, no símbolo, os significados já indicados acima. Isso é, também, um símbolo “polar”. Desde a mais alta pré-história, ele ocultava em si mesmo aqueles significados que deveriam desdobrar-se no céu luminoso das mitologias ou das realezas arianas ou quaisquer derivações da assim chamada tradição primordial.
Do mais, se pode destacar que o simbolismo “polar” tradicionalmente se aplicou também a determinadas civilizações ou organizações quando essas, na conjuntura da história encarnaram exatamente o significado dos “centros”. Assim, é notável a todos, por exemplo, que o antigo império chinês se chamava “império do centro”; o monte Meru, que se valia aos Indo-arianos como o Olimpo, como a sede da força divina, foi considerado como o “polo” da terra; o simbolismo assim chamado omphalos, que foi aplicado ao centro da antiga tradição dórico-apolínea da Hélade, em Delfos, nos reconduz ao mesmo significado; A Asgard da tradição nórdico-germânica, considerado como a mística pátria originária dos cepos reais nórdicos até o tempo dos Godos, se identifica com o Mitgard, que quer dizer precisamente sede ou terra do centro. Finalmente, o nome de Cuzco, centro do império solar dos Incas, parece exprimir, como o omphalos dos helenos, a ideia da “centralidade”. São elementos, tais, suscetíveis de interessantes desenvolvimentos num sentido que podemos chamar de uma “geografia sacra”. É importante, em todo caso, constatar a estreita relação dos vários aspectos a uma única ideia fundamental.
De todo modo, voltando ao duplo elemento contido na cruz gamada assim como em signos similares (a roda de três braços que constitui, entre outros, a Trinacria e algumas rosetas de catedrais góticas conservam traços do mesmo simbolismo), podemos confirmar assim o mais alto significado espiritual: a cruz gamada em movimento sensibiliza o dinamismo de uma força turbinosa e ardente (a roda) que gerando luz e fogo, supre a chama “urânica”, a chama solar, enquanto permanece ao centro uma serenidade dominadora, uma estabilidade imutável – aquela que corresponde sobre seu plano, à condição fundamental para todo verdadeiro regere e para toda grande organização das forças da história.
Podemos então perguntar, até que ponto o conhecimento de tais significados superiores e, em gênero, das tradições às quais aqui nos referimos, teve parte na escolha da cruz gamada da parte do nacional-socialismo alemão. Nessa escolha, segundo nós, operou sobretudo um fato de “subconsciência” – e esse não é o único caso no qual, por um instinto obscuro, tenha tornado hoje à luz e adquirido nova vida símbolos das origens, sem estar acompanhado da consciência dos significados mais profundos que neles se contêm. Em processos do gênero, ainda, elementos inteiramente contingentes têm adensado a parte de “causas ocasionais”, parte contudo, que como tal prejudica o valor do resultado apenas do ponto de vista de uma consideração mais superficial. Assim, no caso da Alemanha, não há dúvidas de que o símbolo aqui tratado tenha sido sugerido por algumas correntes anti-judaicas, as quais defendiam como adaptações políticas um tanto quanto simplistas e militantes o mito indo-germânico e ariano naquela forma unilateral, que sobre o plano das pesquisas sérias era já há muito superada. Também quanto aos significados, se Hitler, no momento de escrever o Mein Kampf, acreditou que poderia simbolizar na cruz gamada “a missão de combater pela vitória do homem ariano e pelo triunfo da ideia do trabalho criador, o qual sempre foi anti-judaico”, vê-se que se estava preso a um plano bastante relativo. Sucessivamente, não se esqueceu, na Alemanha, de descrever o símbolo de um ponto de vista não simplesmente político. A consideração, contudo, raramente é levada a significados mais universais que esse: ainda, como sabemos, os alemães nem sempre esclareceram os aspectos mais interessantes da “cruz das geleiras”. No mais, para ser sincero, o mesmo poderia se dizer de alguns símbolos igualmente primordiais, como o machado contido no fascio, tomado pelo fascismo. Parece ter havido algo de novo, um caso de instinto e quase diremos de “raça”, mais do que uma precisa consciência. Será, portanto interessante observar se as circunstâncias e as vocações farão com que sim, também, os conteúdos mais profundos, espirituais, dos signos em questão virão a despertar forças correspondentes e a operar os mesmos na história.

Se sabe que o nome sânscrito para a cruz gamada é svastika (o svastika e não a svastika). Mas o svastika se pode também interpretar como o monograma constituído das letras que compõem a fórmula portentosa su-ast. O conteúdo de tal fórmula indo-ariana equivale a uma aproximação ao latim bene est ou também quod bonum faustumque sit – vale dizer: “que aquilo que é bom e afortunado seja”.  Por tal via, o símbolo em questão contém também o melhor agouro concebido no que diz respeito ao futuro do grande movimento mundial, que as duas nações do Eixo têm suscitado, ressurgindo precisamente no signo do Machado e da “cruz das geleiras”.

terça-feira, 2 de maio de 2017

O Machado

Julius Evola

Tradução e adaptação do Italiano : Marcelo D. Prati

Tivemos anteriormente a oportunidade de destacar que no mundo das origens – cuja importância para as questões raciais se tornará cada vez mais evidente – onde os assim chamados testemunhos “positivos” são reduzidos ou ambíguos, o símbolo e o mito podem igualmente oferecer um precioso fio condutor para uma exploração portando-se, seguramente, mais sobre a direção da “profundidade” que naquela da “superfície”. Assim tem se reconhecido, e não de agora, do racismo alemão, espécies de um ponto em que se propõe completar suas pesquisas antropológicas e biológicas com um elemento espiritual e de “visão do mundo”, o bastante para reafirmar seus princípios no campo da história e das religiões, da mitologia comparada, das tradições primordiais, das sagas. Para nós, em vez disso, tal terreno ainda parece quase que completamente virgem. Todavia, num mundo que, como aquele da antiga península itálica, já de épocas pré-históricas, sob a influência de civilizações de gentes muito diversas, com tanto para se levar em consideração para a ocasião, um rigoroso paralelismo entre a pureza étnica e a pureza das tradições correspondentes – em tal mundo, uma investigação que reconheça o valor dos documentos e dos signos ao símbolo e ao mito, não poderia conduzir a resultados em pouco tempo.
É claro que para isso se pressupõe uma qualificação adequada e um olhar particularmente adestrado. Tal como a língua, assim também o símbolo e o mito de uma raça podem passar para outra raça, de uma civilização a outra civilização, mudando então, por assim dizer, de função, tornando-se assim um suporte de significados diferentes daqueles normais e originários. É, portanto, necessário saber se orientar e saber integrar tudo aquilo que de uma investigação do gênero possa vir a nós com firmes conhecimentos de ordem tradicional.
Isso é considerado como premissa geral para se considerar, que aqui pretendemos desenvolver ao redor de alguns símbolos que, presentes também no antigo mundo itálico e depois romano, nós testemunhamos ao modo deles, da presença de uma tradição de origem e de tipo puramente nórdico-ário ou, como preferimos dizer, hiperbóreo. Usamos preferivelmente o termo “hiperbóreo” para prevenir interpretações erradas e incertezas justificadas. Falando de “nórdico-ário”, de fato, se poderia crer que nós, mais ou menos, viemos a aderir à tese pangermânica e que reconhecemos a derivação daquilo que de mais válido apresenta a nossa gente e a nossa tradição como vindo das raças propriamente nórdicas e nórdico-germânicas. Tal como usamos, o termo “hiperbóreo” possui, em vez disso, uma extensão bem diferente. Isso se refere a um cepo absolutamente primordial, que se localiza na base do grupo universal dos povos das civilizações árias e da qual as raças propriamente nórdico-germânicas não são mais que uma particular ramificação, as forças originárias criadoras da civilização na antiga Índia, no Irã, na primeira Hélade e na mesma Roma podendo reivindicar uma mesma origem e, ao menos, igual dignidade.
Depois de ter esclarecido bem esse ponto, os símbolos principais daquela antiga herança, que pretendemos examinar e penetrar na maior profundidade e puro significado, são o Machado, o Lobo, o Cisne, a Águia, a Cruz radiada[1]. A tal exame é indispensável o método comparativo aplicado ao ciclo universal das civilizações e dos mitos ários: através daquilo que uma das tais tradições árias oferece, o que em outra se pode encontrar vem a ser integrado, confirmado ou posto em evidência mais adiante.
No presente escrito, nos limitaremos ao Machado. O Machado é um dos símbolos mais característicos da tradição hiperbórea primordial. Seus traços nos levam de volta à mais alta pré-história, segundo alguns, à última era glacial, segundo outros, ao menos ao período paleolítico. Em uma obra recente, Paulsen, entre outros, tem exposto trabalhos onde se consta a grande difusão do Machado hiperbóreo, segundo os vários achados pré-históricos na Europa. O tipo mais antigo de Machado é o assim chamado de “machado sideral”, feito de silício ou ferro meteórico, ou seja, de uma substância caída “do céu”. É agora aceito que o uso de tais machados siderais primordiais foi, sobretudo ritual e sacro. Por causa da substância da qual eram feitos, basicamente nos levam ao simbolismo mais geral da “pedra divina”, da “pedra que veio do céu” que em tantos lugares nos quais veio a surgir, na antiguidade um centro tradicional: do Omphalos de Delfo à “pedra do destino” – lia-gail – das antigas tradições britânicas, das ancilia feitas na Roma antiga com pedra caída do céu e possuindo o significado de garantia de domínio, pignum imperii, até mesmo ao Santo Graal que, segundo a tradição a conservada por Wolfram von Escenbach, a nós aparenta possuir semelhanças com uma pedra caída do céu.
Mas no caso do Machado, esse simbolismo genérico assume um significado especial, com mais estreita relação com uma tradição do tipo heroico, além de sacro. As pedras dos aerólitos simbolizavam também do “relâmpago” (de onde vem a expressão: “pietre della folgore”, pierres-à-foudre), a força celeste relampejante, e esse mesmo significado de relâmpago, de tal maneira, passa também ao Machado como arma e como símbolo veio a significar nas tradições árias e nórdico-árias, desde os primórdios hiperbóreos até a Roma antiga e à mesma era dos Vikings.
Na concepção ária da guerra – e também isso também já trouxemos à tona por outras vezes – o elemento material era inseparável do elemento espiritual, transcendente. A cada luta ou conquista, o antigo Ário via o reflexo de uma luta metafísica, do eterno conflito entre as potências olímpicas e celestes da luz e as potências obscuras e selvagens da matéria e do caos. O Machado como arma e como símbolo está em estreita relação com tais significados. Já o Machado silício aparece como uma arma “celeste” empunhada seja pelo guerreiro e pelo conquistador hiperbóreo, seja pelo sacerdote e sacrificador. Nas inscrições, datadas de uma remota antiguidade, de Fossum (Suécia) aparecem numerosas figuras que empunham o machado junto de símbolos solares. Assim é interessante notar tais duas convergências. Tais antigos símbolos nórdicos correspondem a outros de traços ainda mais antigos, próprios da assim chamada civilização franco-cantábrica das Madeleine, ou dos Cro-magnon (cerca de 10 mil anos a.C.); civilização, chamada também “da Rena”, que em nossa opinião se espalhou até a região lígure. Além disso, exatamente nos traços arcaicos da civilização itálico-lígure, figura novamente o machado junto a símbolos solares e hiperbóreos, como, por exemplo, o cisne e a cruz radiada. Em segundo lugar, foi recentemente confirmada por Franz Altheim a correspondência dos traços pré-históricos, que foram encontrados em Val Camonica com aqueles exatos suecos: também nessa região italiana se encontram inscrições que figuram o machado simbólico junto de um análogo simbolismo solar e astral. Altheim, a respeito disso, tem na verdade falado de uma verdadeira e própria “migração dórica na Itália” parecendo a ele evidente a similaridade da civilização que deixou no norte da nossa península tais traços e que teria guiado por vias enigmáticas, por fim à criação de Roma, juntos de outros dóricos que desceram até a Grécia, a qual deve ter tido sua conclusão na criação de Esparta.
* * *
Quanto ao lado propriamente espiritual, os significados já indicados no “machado sidéreo”, se encontram distintamente no culto nórdico-ário de Thor. Thor é uma figura divina que possui como característica duas armas, as quais, no fundo, se equivalem: uma é o Machado e a outra é o martelo duplo, mjölnir. As duas armas simbólicas se equivalem, pelo fato que o martelo duplo representa igualmente a potência do relâmpago, potência da qual já vimos a relação do Machado, falando dos machados meteóricos: e de resto, o duplo martelo, também no esquema de sua forma, se confunde com o duplo machado, ou machado bipene, que se inclui novamente no mesmo simbolismo e que reconduz especificamente à tradição hiperbórea. Quanto a Thor, é com tal arma que ele combate as “forças primárias”, os Elementarwesen, que tentam tomar posse dos poderes celestes (em símbolo: da “Lua” e do “Sol”); é com tal arma que, na hoste dos “heróis divinos”, ou Ansen, ele luta contra o “obscurecer divino”, contra o ragna-rökkr, a interpretar-se não romanticamente como “crepúsculo dos deuses”, a exemplo de Wagner, mas sim como eco mítico do trágico fim de um determinado ciclo de civilização e de uma dada tradição, derivada daquela hiperbórea. Ou seja, no mito.
Na história, no tempo dos Vikings, Thor surge também como um deus dos guerreiros: era fé dos Vikings, que as virtudes divinas de Thor, sua potência e sua força, se transmitissem em um certo modo a aqueles que empunhassem seu emblema, o Machado, como símbolo da presença dessa mesma divindade. E tal fé esteve na base da mesma realeza nórdica: encontramos reis nórdicos, dinamarqueses e suecos tendo o Machado como símbolo do poder ou como signo de sua dinastia – esse aparece nas bandeiras das hostes de Sven da Dinamarca na conquista da Inglaterra em uma miniatura de Matteo de Paris e se conserva na mesma insígnia real norueguesa, onde é o Machado, e não o Leão, o elemento mais significativo e mais originário. Esse prestígio místico do símbolo hiperbóreo no norte foi tal que no período da cristianização, a nova fé o conservou: fazemos alusão ao culto, extremamente difundido no norte, de Santo Olaf, o qual era uma espécie de reencarnação cristianizada de Thor: como Thor, ele possui uma barba dourada e empunha o Machado, como Thor ele é um místico protetor do país, esse santo, sendo já um rei, passado na forma de um “rei perene da Noruega” – perpetuux rex norvegiae – ao ponto de que os soberanos subsequentes consideravam reinar em seu nome (Paulsen).
Além disso, a mesma conexão do supremo poder com uma espécie de consagração transcendente no signo hiperbóreo do Machado se encontra por sua vez na Itália, e, através dos Lígures, onde o Machado semelhante relação com a realeza, conduz até ao Machado incluso no símbolo litório da Roma antiga, símbolo do poder e do direito, tendo tantos ignorado seu significado primordial, eminentemente sacro, interpretado, em vez disso, em termos sobretudo jurídicos e políticos, e assim profanos e seculares.
Dentro dos mesmos significados se encontram em outras tradições árias. Relembremos aquela indo-ária relativa a Paraśu-Râma, ou seja, Râma do Machado. Com o machado bicúspide hiperbóreo, segundo a tradição a nós transmitida de forma mais ou menos mítica pelo Mahābhārata, essa figura de herói divino ou de condutor criador de civilização, quando os progenitores dos conquistadores ários da Índia ainda habitavam em uma região nórdica, tinham exterminado os mlecchas, uma espécie de titã, uma casta guerreira degenerada, que havia tentado usurpar a suprema autoridade espiritual.
No ciclo mediterrâneo, a figura de Zeus Labrandeus, ou seja, Giove do Machado bicúspide, nos leva à já indicada relação entre o Machado e o Relâmpago, arma basilar de tal deus olímpico: mas o relâmpago é a força com a qual Zeus abate os Titãs e os Gigantes de sua tentativa de tomar posse dos territórios olímpicos, mito, tal, que novamente reflete seja o tema de uma “guerra metafísica perene”, que se diz ser característico para a espiritualidade heroica, ária, ou seja o testemunho dos embates entre diversos tipos de espiritualidade e entre várias raças na Hélade mais ancestral. Sempre sobre tal base, o machado foi e pode ser efetivamente considerado como símbolo da espiritualidade heroica ária: desde os troncos ários primordiais ele foi empunhado em empreitadas guerreiras, que em tal se valiam como uma espécie de dramatização ou continuação da luta metafísica na sombra do mito: e ao mesmo tempo figurou nos ritos, na intenção de evocar e determinar, através do sacrifício, forças invisíveis. Apenas mais tarde, quando o conceito de “sacro” é disposto em uma outra ordem de ideias, identificando-se propriamente com “santo”, o Machado pouco a pouco perdeu seu significado original e não passando mais de uma arma e um instrumento sem alma.
Voltando ainda ao antigo mundo mediterrâneo, é extremamente significativo reencontrar o machado, mas partido, nos traços mais antigos de culto da civilização pelásgica: machados partidos eram ofertados às divindades com uma inversão dos significados – no que diz respeito ao culto ário – que é quase satanismo. Na realidade, a civilização pelásgica surge no Mediterrâneo pré-ariano e pré-helênico e num ciclo religioso, na qual se sustenta a figura de uma mulher divina e na qual mulheres ou homens afeminados tinham uma parte fundamental no culto. Em tal ciclo, Zeus cessa de ser um deus olímpico para tornar-se um tipo de demônio sujeito ele mesmo à morte – tanto que em Creta se figurava sua tumba; aqui a figura do deus das águas e do fogo subterrâneo se mistura ao culto de entes da vegetação selvagem e do reino animal e, de um outro ponto de vista, a cultos e costumes semíticos-asiáticos impressos por um confuso ímpeto dionisíaco, do afroditismo, de um êxtase inconsistente e desordenado.
Ao mesmo tempo, vemos que o Machado, em tal antigo mundo mediterrâneo pré-ariano, é roubado pela divindade feminina e pelas Amazonas; detalhe significativo, este ultimo, não apenas se sabe que as Amazonas, “mulheres viris” e guerreiras, não são nada além de uma figuração mítica que, através do símbolo faz alusão essencialmente à tentativa de furto da forma “feminina” de espiritualidade contra a tradição heroica, solar e “urânica” (celeste) de origem hiperbórea. Mas o mito fala também de Hércules o herói mais representativo da estirpe dórico-ária e de outros heróis aliados às potências olímpicas, que combatem as Amazonas, matam sua rainha e entre os troféus de suas vítimas retomam – entre outras coisas – o exato Machado, o símbolo hiperbóreo roubado. O mito não poderia falar de maneira mais clara.
Seria fácil indicar desenvolvimentos análogos na trama da antiga história itálica e também na de Roma: combates entre forças profundas das raças, entre forças humanas e divinas que de tempos em tempos se manifestam em diversas formas, ora políticas, ora sociais, ora religiosas. Por exemplo, a civilização etrusca é considerado elementar como tendo surgimento no ciclo mediterrâneo-oriental das raças pré-arianas, contra as quais já haviam lutado a Hélade acaia e dórica. Roma, que assume o Machado, símbolo já etrusco, na insígnia litória do poder, repete quase o gesto vingador que no mito se refere a Hércules e do qual falamos agora há pouco. Tudo aquilo de grande que Roma realizou, o realizou através de um esforço tenaz de purificação e de superação de elementos itálicos e não-ários mesclados, nas origens, com as forças da tradição ária e nórdico-ária. Machado, Loba, Águia, Cruz radiada, etc. – os símbolos sacros dos conquistadores hiperbóreos – reaparecem, contudo, no centro da grandeza romana, como silenciosos signos de seu “mistério”.
NOTA CRÍTICA
Os referimentos, claramente negativos, de Evola ao fim deste ensaio sobre a civilização Pelásgica e a etrusca, nos obrigam aqui a algumas considerações de revisão crítica.
Sobre os Pelásgicos, diferentemente daquilo que pensasse Evola (especialmente sob a guia de Piganiol), hoje se tende a considerá-los como vanguardistas (desde o III-II milênio a.C.) dos povos indoeuropeus e vêm a tornar-se objeto de uma atenção crítica mais madura e menos “maniqueísta”. São vistos os seguintes estudo: C. DE PALMA, La Tirrenia antica, vol I, Sansoni, Firenze 1983, pp. 263-264 e passim; M. SAKELLARIU, Peuples préhelleniques d’origine indo-européenne. Athenai 1977 e do mesmo: Les proto-grecs. Athenais 1970; Ch. LAHALLE, Le peuplement de la Grèce et du bassin égéen aux hautes époques, em “Nouvelle Ecole” n. 43 (inverno 1985-86), pp. 133-137 (análise crítica das obras de Sakellariu). Análogo discurso se poderia fazer sobre a complexa questão dos Etruscos, ainda não resolvida, mas para afrontar-se com a devida cautela e sem preconceitos ou conclusões precipitadas de qualquer tipo. Veja também: R. DEL PONTE, Etruschi Troiani e la critica attuale, prefácio de L’etruria nell’Eneide de B. NARDI, Genova 1981, pp. 7-11; M. E. MIGLIORI, revis. por J. EVOLA, La Forza rivoluzionaria di Roma, em “Arthos”, XII-XIII, 27-28 (1983-1984), pp. 80-82 (no qual se reassume os termos da questão e se manifesta a necessidade de redimensionar a posição de Evola sobre a questão etrusca, que mantém sua validade apenas como hipótese de trabalho para a época na qual foi formulada, ou seja, nos anos trinta).
A postura de Evola é pesadamente acometida de formas ‘dualísticas’ desenvolvidas sobre um plano histórico-metafísico anteriormente por Bachofen no século XIX e depois por Piganiol, num plano mais profano (e assim ainda menos justificado), na primeira metade do século XX. Assim retoma essa postura M. ELIADE, La nostalgia delle origini Mocelliana, Brescia 1972, pp. 148 e seg.: “Brevemente, por volta dos anos vinte, a classificação dual da sociedade e do mundo, com todas as suas cosmologias, as mitologias e rituais que essa mantinha, foi considerada como possuidora de uma origem social (Durkheim e seus seguidores) ou uma origem histórica; esse ultimo caso resultava da mistura de dois grupos étnicos: uma minoria de conquistadores civilizados e uma massa de aborígenes ainda presos a um estado primitivo (Elliot Smith e os pan-egipcianistas). Nem todos os ‘historicistas’ caíram nesse excesso de tais extremistas da teoria ‘difusionista’. Mas diante de uma certa forma de ‘dualismo’, eram tentados a explicá-la ‘historicamente’, ou seja, como uma consequência do encontro de dois povos diferentes, seguido de sua mistura. Para tanto, como exemplo, em seu livro Essai sur les origines de Rome (1916), A. Piganiol explicava a formação da nação romana como a união dos latinos, ou seja, daqueles indo-europeus, com os Sabinos, e estes últimos faziam parte, segundo o estudioso francês, de um grupo étnico mediterrâneo (...). Depois de 1944, Georges Dumézil pacientemente desfez essa interpretação. Sabemos agora que os dois modos sepultamento – cremação e inumação – não refletem uma dualidade étnica. De fato, tais dois costumes frequentemente coexistiam (...). A compreensão da função das polaridades na vida religiosa e no pensamento das sociedades arcaicas e tradicionais requer um esforço hermenêutico e não uma desmistificação.” (n. d. c.)



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[1] Como no programa de Evola à época da redação do presente escrito. Na realidade, parte dos estudos previstos, como se pode constatar ao índice desta coleção, contudo jamais realizada.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O Feixe (fascio)

Julius Evola
Tradução e adaptação do italiano para o português: Marcelo D. Prati



“O poder do símbolo é maior do que o poder dos homens.” – foi dito por Olimpiodoro[1].
E Bachofen: “O símbolo desperta um portento, enquanto a língua pode apenas explicar. O símbolo faz vibrar as cordas do espírito todas juntas, enquanto a mente é submetida a manter um único pensamento de cada vez. O símbolo empurra suas raízes até a mais secreta profundidade da alma, enquanto a língua apenas acaricia, como um leve sopro de vento, a superfície do intelecto: o primeiro é direcionado ao interior, esse último ao exterior. Apenas o símbolo é capaz de ajuntar na síntese de uma impressão unitária, os elementos mais diversos. As palavras fazem finito o infinito, os símbolos, ao contrário, conduzem o espírito para além das fronteiras do mundo finito e condicionado, para o mundo infinito e real.”[2]
As correntes mais recentes e vivas da filosofia da cultura são caracterizadas precisamente por um interesse crescente pelo mundo do símbolo e do mito, concebidos não como poética e invenções arbitrárias, mas como dramatizações que encerram significados profundos dos tempos mais distantes.
E a tal interesse se associa congenialmente, um olhar voltado para o passado, para as “origens”, onde, no lugar da humanidade animalesca suposta pelo darwinismo e pelo evolucionismo, os novos pesquisadores parecem, em vez disso, figurar os traços de uma espiritualidade primordial insuspeitada.
Nas presentes notas, desejamos delinear o sentido mais profundo que houver para o simbolismo do Fascio tal como resulta desse tipo de pesquisa, ainda não tanto observada entre nós.
Como ponto de partida, se pode tomar os resultados de uma investigação gigantesca sobre a pré-história devida ao holandês Herman Wirth,[3] mas que foi traçada apenas pelo seu lado antropológico. Wirth se crê suficientemente seguro para admitir a existência de uma civilização cósmico-simbólica unitária, datada do megalítico, ou talvez ainda mais além; e também a existência de uma raça originária, portadora de tal cultura, que em imensas ondas parece ter chegado primeiro no norte e rumado ao sul, depois do ocidente ao oriente, dando lugar às civilizações seguintes similares, originariamente orientadas pelo mesmo espírito, marcadas pelos mesmos símbolos e cultos. Sobre esta tese corajosa, que não é de um “teósofo” ou de um amador, mas de um técnico, e que uma sociedade especializada é dada a inspecionar e verificar, nós aqui não nos demoraremos. O que nos serve é delinear o tema unitário que – para Wirth – parece ter estado no coração de tal civilização primordial, e que na realidade pode servir de ponto de referência também independentemente da hipótese acima traçada, ser acatada de maneira integral e literal.
Se trata do caso do sol no ano, tomado num significado real e simbólico ao mesmo tempo. O sol: princípio manifesto que como calor e como luz desperta a vida. Se diz “semente de vida”, “vida”, “luz das terras” (o landa ljóme rúnico), nas mais ancestrais ideografias o seu signo exprime igualmente o “homem”. E como no seu curso anual o sol morre e renasce, há inverno e primavera, assim também o homem possui o seu ano, morre e ressurge. O ano solar, o “deus-ano” como expressão de uma lei universal de renovo e renascimento – isso teria sido o centro de uma experiência espiritual primordial, cujos ecos, no entanto, se encontram um pouco em toda parte e que, além disso, não de agora têm estado inseridos no escopo da ciência comparada das religiões, também em atitudes e hipóteses muito diversas daquela de Wirth.
No mito solar um ponto há, contudo, sempre necessidade de uma importância especial, desde a mais alta pré-história, desde a mesma “civilização dos dolmens”: o ponto no qual a luz solar parece tramontar e limitar-se, abandonar a terra desolada onde depois, novamente, resplandece: é o solstício de inverno. Aqui aparece um símbolo fundamental: o machado. Aqui o “deus-ano” possui o signo do “machado”, é o “deus-machado” o “deus-espículo” que rompe em dois, arco ascendente e arco descendente, o signo do ano, muito frequentemente representado por um círculo. Aqui, portanto, a divisão simbólico-calendária se completa, se inicia o novo ciclo – o novo ano, a nova vida – a “luz” “nasce” ou “renasce”. Inicia-se uma nova “série sacra”.
Wirth chama “série sacra” uma série de doze signos fundamentais, os quais devem corresponder com todas as fases do sol no ano – “momentos” ou aspectos do deus – determinados pela relação com os doze símbolos do zodíaco. Wirth crê ser possível reconhecer uniformemente nos vários traços das civilizações do cepo nórdico-atlântico, no ocidente e no oriente, similares “séries sacras” que, contudo, teriam agrupado significados e valores múltiplos: o signo da “série sacra” se valeria simultaneamente seja como signo-base para um alfabeto pré-histórico (traços no linearismo pré-hieroglífico egípcio, amorítico, chinês, etc.), seja como correspondência gráfica de certas vozes, raízes de uma linguagem antiquíssima não inteiramente apagada nos idiomas mais recentes. Onde ao solstício de inverno o sol ressurge e se põe o signo inicial do novo ciclo, “a boca se abre” e “nasce a língua”. Em realidade, na antiga escritura egípcia e suméria o hieróglifo do sol que surge possui também o valor da “boca que se abre”, “língua”, “palavra”. Mas “falar”, naquelas tradições, possui também ao seu redor o valor de “criar” – a “palavra” do “deus” – de Rá – é criadora.
Resumindo, e portando ao universal aquilo que está contido potencialmente nas ocorrências de uma tal simbologia, nós possuímos portanto, um significado de “criação” que simultaneamente é “nascimento solar”, “luz”, significado conexo ao número doze das “séries sacras”, que exprimem o completo desenvolvimento do novo princípio. Temos ainda o aspecto “machado” do deus simbólico no solstício de inverno, que, referente às duas partes ou arcos por ele cortados – um de tenebroso “inverno”, outro de renascimento solar – aparece frequentemente nos mais antigos traços sob a forma de duplo machado ou machado bicúspide, bipene ou labrys. A tal signo solar se conecta também um significado heroico e guerreiro: com trovão e machado bicúspide o deus Merodak combate o monstro do caos Tiamat; duplo machado ou duplo martelo temos os paleogermânicos Thor e Tarann, que são simultaneamente divindades relampejantes das batalhas; o machado bicúspide é a presa despedaçada pelo herói Hércules na sua luta simbólica contra as Amazonas e dessa Zeus Cario traz seu nome, Zeus Labrandeus; e assim segue. No geral, está ligado a tal signo um significado que se encontra em todos aqueles mitos ou lendas onde heróis solares lutam contra monstros ou dragões, os quais personificando as forças obscuras e selvagens do caos, ou seja, contra aquele mesmo elemento de trevas do qual – no mais abrangente mito encarnado da mesma natureza – o sol, realçando-se ressurge vitorioso: natalis solis invicti.
Quanto ao número doze, dado sua correspondência urano-solar, vemos que ele recorre em qualquer lugar onde se constitua um centro o qual, de um modo ou de outro, tenha encarnado ou buscado encarnar aquela tradição que, num sentido analógico e eminente, possamos exatamente chamar de “solar”, ou em qualquer lugar que o mito, ou lenda tenham dado em figuração ou personificação simbólica o tipo de tal regência. Para exemplo, aqui não saberíamos nem por onde começar. Aos doze Aditya solares, fazem referência na nas tradições hindus, as doze partes das Leis de Manu. Doze são os grandes Namshan do “conselho circular” segundo a tradição tibetana e doze seriam, segundo a chinesa, os discípulos de Lao-Tsé. Não outro é o número de portas da “Jerusalém celestial” na tradição hebraica e o mesmo se dá com os discípulos do Cristo. Doze estágios completa o herói caldeu Gilgamesh ao longo da “via solar” para alcançar a terra “para além das águas da morte” e doze “trabalhos” completa Hércules. Doze eram as grandes divindades olímpicas e doze os principais cavaleiros da “Távola Redonda” do Rei Artur e da lenda do Graal, assim como os Condes paladinos de Carlos Magno. E muitas outras correspondências poderiam ser facilmente encontradas. Ver em tudo isso um simples “acaso” parece muito fácil. À nossa percepção é muito mais sábio pressentir aqui traços mais ou menos conscientes de um único tema, de um único significado, de uma única tradição, histórica ou supra-histórica que tenha emergido aqui e ali, através do subterrâneo, tanto sobre o plano do mito quanto sobre aquele da realidade[4].
Agora, traços do gênero estiveram presentes também na mais antiga romanidade e, para dizer a verdade, de moto característico, desde suas origens. Não se encerra talvez um oculto significado no fato de que, segundo a tradição, Rômulo, por ter visto doze abutres, teve o direito de dar seu nome à cidade eterna? E que doze seria o número das ancilia estabelecido por Numa como signo, recebido do “céu”, da proteção divina?[5] Doze, de todo modo, foram em Roma os altares do deus Giano, o qual não é mais que uma figuração do “deus ano”, o deus dos começos não livre de relações com o mesmo “demone” da guerra – ou seja, com a potência sobrepujante do elemento heroico: que era o libertar de um demone que ansiava significar, tal como se refere Virgilio, ao fato de que apenas em tempo de guerra o templo de tal deus era deixado aberto. Doze – como aquelas gregas – são, além de tudo, as máximas divindades romanas segundo Varrone; doze é o número de sacerdotes de vários colégios romanos entre os mais antigos – por exemplo, os Arvali e os Sali – doze é o número dos lictores instituídos por Rômulo – como doze, enfim, são as varas do mesmo Fascio romano, segundo aparentam os fasci capitolinos que ainda existem. Assim atingimos nosso ponto central – temos todos os elementos ocorrentes para compreender desde o mais íntimo aquilo de mais profundo pode ser encapsulado neste símbolo maximamente significativo para a romanidade. O fascio romano se compunha de dois elementos: daquelas exatas doze varas – e de um machado, que às vezes é um machado bicúspide, exatamente como o machado pré-histórico que se encontra nos traços neolíticos e talvez ainda paleolíticos; nos quais se acompanhava com o signo do renascimento, o “homem com os braços erguidos.”
Consideraríamos aqui também o “acaso”? É seguro que ao pensar sobre isso, possam ser conduzidos aqueles que – enquanto admirando-a – não vejam na romanidade mais que uma grandeza puramente temporal, tendo como superstição “superada” tudo aquilo que como rito e como símbolo foi inseparável, em Roma, de toda instituição e toda manifestação da vida, seja individual ou coletiva; rindo daquilo que ao romano vale como último, como mais firme segurança, ou seja, aquela que vem dos “deuses” – se entenda: o elemento “divino” – foi feita a potência e a aeternitas romana como ao limite da pax augusta et profunda firmando-se imperialmente como o limite do mundo conhecido. De nossa parte, não saberíamos, contudo, compartilhar de tal postura. Para nós, Roma, mais do que uma grandeza material, politico-jurídica e militar, foi uma grandeza espiritual, ainda que essa não sinta a necessidade de demorar-se em abstrações filosóficas e de devotar-se a uma insalubre e evasiva e agrilhoante religiosidade do tipo asiático-semítico. Não seríamos capazes de “crer” que a romanidade – assim escrupulosa na exata determinação sacra e de detalhes quase insignificantes – tenha mais tarde decidido ao “acaso” a escolha e a determinação de um símbolo assim central de sua civilização, como o Fascio litório. E caso se considere por outro lado, em que medida continua na magistratura romana um caráter sacro, ainda se pode considerar que nos mesmos fasci dos litórios pode estar incluso um significado superior; que na realidade aqui se tratam dos traços de uma sabedoria antiga e solar, do signo ritual de um destino e de uma grandeza.
Ao redor do machado, símbolo heroico e sacro que “separa”, que fecha uma época e abre “triunfalmente” um novo ciclo,[6] uma nova criação, como luz de um novo “ano” ou saeculum, estando agrupados os signos de uma totalidade, de um desenvolvimento perfeito em sentido “solar”: os doze[7]. Agora, na história do mundo, poucas realidades aparentam ser mais aderentes do que a romana a um tal símbolo, mais fieis – a uma aeternitas cesárea e a uma universalidade solar – a essa promessa ritual. E Roma é, de tal forma, passada da história para a supra-história, tanto que faz predizer até mesmo os escritores da nova religião semítica que “enquanto Roma permanecer íntegra, as assustadoras convulsões da idade última não serão temíveis – mas o dia em que venha a cair, a humanidade estará próxima de sua agonia”[8] – assim, a partir de uma transfiguração permanece presente seu símbolo, o Fascio.
Do símbolo, uma multiplicidade de aspectos que não se contradizem, mas se hierarquizam, é a característica fundamental. De um símbolo se pode evocar o corpo. Mas dele não se pode evocar a alma, aquela parte que, - segundo as palavras de Bachofen citadas no início – conduzem o espírito para além do condicionado e contingente. O que também vale para o Fascio. Isso pode valer como signo num nível político – mais profundamente, isso pode valer como signo para um nível étnico; enfim, isso pode possuir valor num lugar de espiritualidade pura, daquela espiritualidade que é, ao mesmo tempo, potência.
Que a raça, que hoje tem celebrado os signos e o nome da romanidade precisamente como base para a vontade de um “renascer” nacional – podendo sustentar ali também a alma, a adequar-se como potência aos significados de ressurreição “triunfal” e de consumação “solar” tacitamente encerrados no signo arcaico do machado e dos doze: nenhuma outra pode ser a esperança daqueles que ainda “creem” e que resistem contra as grandes sombras da decadência espiritual que pairam sobre o ocidente moderno.




[1] OLIMPIODORO, Ms. Bibl. Royal P., Praxis mz., f. 72.
[2] J. J. BACHOFEN, Urreligion und antike Symbole, Leipzig, 1928, v. 1, pp. 283-284.
[3] H. WIRTH, Der Aufgang der Menschheit – Unterschungen zur Geschichte der Religion, Symbolik und Schift der atlantich-nordischen Rasse, Jena, 1928.
[4] Sobre tal tema, vale assinalar a obra grandemente notável de R. GUENON, Le Roi du Monde, Paris, 1928.
[5] Vale a pena mencionar sobre a tradição romana da ancila, o escudo recebido do céu como pignus imperii (OVIDIO, Fast., III, pp. 259-398). Teriam sido obtidos por Numa para assegurar a perenidade de Roma e, além disso, equivale a um símbolo pélvico contentor da ambrosia, ou seja, um alimento perene imortalizador (crf. F. DUMEZIL, Le festin d’Immortalité, Paris, 1924, pp. 127-151). Agora, o colégio dos Salis, instituído por Numa para a guarda dos pignus imperii, composto de doze membros, junto a tal escudo, possuía outro símbolo: a hasta, ou lança. Assim, na romanidade vemos já, exatissimamente, os mesmos símbolos que surgem no mito mais característico de outro grande período imperial europeu, aquele feudal-cavaleiresco: no mito do Graal. De fato, doze, como já dissemos, são os cavaleiros do Graal, que guardam a tempo a lança (=hasta) e o cálice, que, como a ancila, oferece um alimento místico perene e imortalizador. Observemos que, embora adaptado ao cristianismo, o mito do Graal possui origens nórdicas pré-históricas: o cálice e a lança figuravam já, juntos da negra “pedra do destino” que proclama o verdadeiro rei (e é estranho o caso de que também a romanidade tenha conhecido um lapis niger, que foi posto no início da via Sacra) para os objetos místicos levados com ele até a Irlanda da “raça divina” dos Tuatha Dé Danann (crf. C. SQUIRE, The Mythology of ancient Britain and Ireland, London 1909, p. 34).
[6] Poderemos facilmente notar como elemento “triunfal” encontrado, por outro lado, a expressão também do símbolo romano ligado ao Fascio, a Águia, animal considerado também como “solar” da antiguidade. Segundo a tradição, sob forma de “águia” teria voado da pira a alma imperial de Augusto (cfr. L. PRELLER, Römische Mythologie, Berlin, 1858, pp. 787, seg.); e tal águia corresponde efetivamente a outra que, no mito, abandonou o rei paleoirânico Yima e que significava o hvarenô. Ora, o hvarenô é a “glória” concebida pelos iranianos como um “fogo celeste” ou “solar” que consagra e faz imortais os reis, atestando-os com a vitória. (cfr. F. SPIEGEL, Eranische Alterrumskunde, Leipzig, 1871, v. II, pp. 42-43). É a tradição de uma ancestral espiritualidade do tipo heroico, que portanto, é possível de encontrar em quase todas as grandes civilizações pré-modernas sobretudo arianas (cfr. o nosso escrito sobre Il carattere sacro della regalità em La Nobilità della Stirpe, n.1 de 1932)
[7] Não é, portanto sem interesse o fato de que alguém tenha tentado encontrar o doze no ciclo imperial romano: SVETONIO, p. es., escreveu uma Vita dei dodici Cesari. Doze saecula, ou seja, uma profecia etrusca tinha marcado a vida de Roma.
[8] Cfr. LATTANZIO, Inst., VII 25, 6.